Dependência emocional e financeira dificultam encerrar relações abusivas contra mulheres
Hamandda Oliveira
Mesmo reunindo em um único espaço, no bairro Vila Nova, atendimento psicológico, assistência social, delegacia e órgãos da Justiça, a Casa da Mulher Maranhense, inaugurada em agosto de 2020, fez história ao se tornar a primeira unidade do país, fora de uma capital, a integrar os principais serviços da rede de proteção à mulher em situação de violência.
Com funcionamento de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, o espaço realiza uma escuta inicial e triagem especializada para direcionar cada caso de maneira adequada, mas ainda enfrenta um dos maiores desafios no combate à violência doméstica: garantir que as mulheres consigam romper definitivamente o ciclo de abusos. No Maranhão, até o momento, em 2026, já foram registrados 16 feminicídios.
A rotina da equipe multidisciplinar varia conforme a demanda, que costuma aumentar após fins de semana e feriados, enquanto relatos marcados pela dependência emocional e financeira revelam a complexidade da realidade vivida por muitas vítimas. Para os profissionais da unidade, ampliar as ações voltadas à autonomia econômica é um passo fundamental para transformar acolhimento em recomeço.
A estrutura engloba órgãos essenciais como a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Defensoria Pública, Ministério Público, Vara Especializada, Patrulha Maria da Penha e o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM). Até julho de 2024, a instituição já contabilizava mais de 28 mil atendimentos prestados.

Segundo a assistente social Lilian Figueiredo, os períodos de maior procura costumam ocorrer logo após fins de semana, feriados prolongados e grandes eventos na cidade, momentos em que os casos de violência doméstica tendem a aumentar.
Dependência
Em média, a equipe psicossocial atende de três a quatro mulheres por dia por meio de demanda espontânea, embora a oscilação seja comum. “Tem dia que não aparece nenhuma mulher. Tem dia que aparecem dez”, relata a assistente social Lilian Figueiredo. Cada atendimento carrega uma história singular e evidencia as barreiras para o fim do ciclo de abusos.
Apesar do acesso facilitado a toda a rede de proteção em um só local, um dos principais entraves enfrentados pelos profissionais é o monitoramento de mulheres que decidem retornar ao relacionamento mesmo após registrarem denúncias e solicitar medidas protetivas. Para Lilian, a dependência emocional surge como um dos fatores centrais que impedem a ruptura definitiva.
“A segurança emocional, em muitos casos, faz com que essas mulheres retornem ao relacionamento. A dependência financeira conta bastante. Muitas vezes elas não têm apoio nem da própria família para sair desse ciclo.” disse Lilian.
Somado ao fator afetivo, o controle financeiro exercido pelo agressor é uma ferramenta de aprisionamento. Segundo a assistente social, é frequente que o autor da violência impeça a parceira de estudar, trabalhar ou buscar qualquer forma de autonomia, mantendo-a sob vigilância e submissão constantes.
Autonomia
Embora promova ações voltadas à inserção das mulheres no mercado de trabalho, a Casa da Mulher Maranhense reconhece que ainda há uma lacuna estrutural importante a ser preenchida nessa área. Atualmente, a oferta de cursos profissionalizantes e oportunidades de emprego ocorre por meio de parcerias pontuais com universidades, empresas e órgãos públicos, além do apoio do Sistema Nacional de Empregos (Sine) para o encaminhamento de currículos.
No entanto, Lilian avalia que a unidade de Imperatriz carece de uma estrutura permanente voltada exclusivamente ao fortalecimento da autonomia econômica das vítimas, diferentemente do modelo originalmente previsto para as unidades da Casa da Mulher Brasileira. “A gente trabalha essa autonomia econômica de forma muito tímida. Fizemos muita coisa, mas ainda poderíamos fazer mais diante dessa realidade”, desabafa. Fortalecer essa política pública é visto como um passo fundamental para reduzir a barreira da dependência financeira.

Peso da violência
A atuação na linha de frente do acolhimento impõe também um severo desgaste emocional à equipe técnica. Atuando há quase cinco anos na instituição, Lilian Figueiredo revela que o impacto diário dos relatos de agressão afeta diretamente sua saúde mental. “Já ouvi de tudo que você possa imaginar. Tem atendimentos que mexem comigo por dias”, conta.
A natureza sensível do trabalho faz com que a carga seja ainda mais evidente para o grupo. “A violência doméstica é uma pauta muito pesada porque nós também somos mulheres”, ressalta Lilian. Esse cenário de sofrimento psicológico e ansiedade já levou, inclusive, outros colegas a se desligarem da equipe ao longo do tempo. Ainda assim, a assistente social busca resiliência para seguir adiante “Eu acho que Deus cuida muito de mim nesse sentido, porque é pesado”.

Para os profissionais da unidade, o verdadeiro propósito do acolhimento vai além do suporte emergencial e exige ações permanentes de reconstrução. “Não adianta só a mulher denunciar e voltar para o mesmo ambiente de agressão porque não tem como se sustentar. Se a gente não der ferramentas de trabalho e renda, o ciclo não fecha”, pondera Lilian Figueiredo.
Segundo a assistente social, o objetivo final é garantir que o acolhimento se transforme em autonomia real no dia a dia. “A gente quer ver essas mulheres livres, seguras e com dignidade para refazerem suas histórias. É por isso que, apesar de toda a dor que ouvimos aqui, a gente continua na luta todos os dias”.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.