Fundada em Açailândia em 2006, a junina já formou artistas e mudou histórias
Wallyson Ferreira
Cultura, pertencimento e transformação social por meio da dança. Fundada em 2006, em Açailândia (MA) a Quadrilha Junina Matutos do Rei se consolidou como uma das principais expressões da cultura popular maranhense. Ao longo de 20 anos de história, o grupo encantou plateias em todo o Nordeste, levando espetáculos que unem criatividade, identidade e compromisso com a arte. Mais do que apresentações, a junina fortalece o sentimento de pertencimento e transmite valores que atravessam gerações.

O grupo nasceu em 2 de junho de 2006, criado por quatro amigos. Só um deles permanece à frente da associação até hoje: Jhonnatas Pollary, fundador e membro da diretoria. Segundo ele, liderar a Matutos “nunca foi planejado de fato”. Com o passar do tempo, cada um dos fundadores foi seguindo seu caminho, e coube a Jhonnatas formar novas lideranças ao longo dos anos. “Caso contrário a Matutos não seria o que ela é hoje e talvez nem existisse”, afirma.
Os ensaios da Matutos do Rei, mais do que uma preparação para os tablados, funcionam como verdadeiras oficinas de dança e teatro, nas quais brincantes desenvolvem habilidades artísticas em um ambiente colaborativo. É nesse espaço que surgem novos figurinistas, coreógrafos, atores e cenógrafos, maquiadores e costureiros, reforçando o papel da junina como agente de desenvolvimento cultural e social.
Para Marcela Rios, integrante da junina há 12 anos, os ensaios vão muito além da preparação para o São João. “É um espaço de aprendizado, entrega e transformação onde o espetáculo ganha vida e cada integrante descobre a importância do seu papel na construção de algo maior”, comenta. Foi por meio da quadrilha, conta ela, que encontrou oportunidades e transformou a cultura em instrumento de trabalho.
Hoje Marcela atua como produtora cultural e afirma que a Matutos do Rei lhe ensinou “compromisso, disciplina, trabalho em equipe e, principalmente, a acreditar na força dos sonhos construídos coletivamente”. Cada ensaio, resume, carrega “cansaço, dedicação e renúncias”, mas também a certeza de que vale a pena. Em 2026, a integrante chegou a transformar a própria residência em um ateliê junino, onde peças do espetáculo foram confeccionadas, gerando trabalho e renda para a família.
O grupo é reconhecido como utilidade pública em Açailândia desde 2025 e também como Ponto de Cultura desde 2024, títulos que reforçam sua relevância na promoção da cidadania e na preservação das tradições populares. Essa legitimidade se traduz em ações concretas que beneficiam a comunidade. Em 2025 passou a ser considerada Patrimônio Imaterial do Município de Açailândia, com a aprovação da Lei municipal nº 792/2025.
Além disso, entre os projetos sociais mantidos pela associação está a Casa Brincante, localizada na Vila Ildemar. O espaço oferece biblioteca comunitária, aulas de teatro e dança, e já atendeu mais de 5 mil crianças entre 2023 e 2025. Ali, jovens e famílias encontram acolhimento, aprendizado e oportunidades de expressão cultural.
Títulos conquistados
A trajetória da Matutos do Rei é marcada por títulos expressivos: ela é hexacampeã maranhense (cinco Arraiás da Mira e dois estaduais). Representante do Maranhão cinco vezes no Festival da Globo Nordeste, tri campeã regional e tetra campeã municipal, Melhor Coreografia do Nordeste (2015) e Melhor Marcador do Nordeste (2016). Essas conquistas consolidam o grupo como referência no cenário junino.
A Matutos do Rei também já esteve em grandes parcerias culturais, como ações com a Disney e Pixar, que resultaram em uma quadrilha temática inspirada no filme Toy Story 4, além de participações no São João da Thay, evento beneficente promovido pela influenciadora Thaynara OG.
A cada ano, o grupo apresenta um novo tema, transformando o palco em narrativa viva. Entre os mais marcantes estão: Cio da Terra (2011), No Arraiá do Pescador um Mar de Ilusão (2014), Catirina, Dançam Estrelas do São João (2017), O Círio de Nazaré – A Festa da Rainha da Amazônia (2019), Ave Fogo – Louvores à Ressurreição (2022), O Reino do Nordeste Encantado (2023). Cada espetáculo é uma celebração da cultura popular e da criatividade coletiva.

Mais do que títulos e apresentações, a Matutos do Rei representa um legado cultural e social para Açailândia e para o Maranhão. A junina não apenas preserva tradições, mas também transforma vidas, formando artistas, fortalecendo vínculos comunitários e levando a cultura maranhense para o Brasil inteiro.
Para Jhonnatas Pollary, fundador e presidente da Matutos do Rei, comandar uma quadrilha que ao longo do tempo foi se tornando uma instituição capaz de impactar tanta gente é, ao mesmo tempo, desafiador e transformador. Segundo ele, a associação “mudou minha vida e a vida da minha família”, fazendo-o enxergar a cultura, os costumes e as pessoas de uma forma como nunca imaginou ser capaz de ver.
A experiência, resume, moldou seu pensamento e reforçou valores: “Me fez entender que somos capazes de lutar por aquilo que acreditamos, que sonhos podem ser realizados. Em 20 anos de São João com a Matutos, eu descobri que o impossível é só um detalhe e que a força de vontade aliada ao foco, determinação e fé, a gente consegue realizar coisas incríveis”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.