Tradições, memórias e pertencimento durante a maior festa de São Benedito
Maria Moraes
A Marujada é uma manifestação popular religiosa que teve início com os negros escravizados no Pará. Alguns relatos dizem que, em 3 de setembro de 1798, 14 escravizados pediram aos seus “senhores” autorização para organizar uma irmandade dedicada a São Benedito, o primeiro santo preto. A permissão foi concedida e, como agradecimento, eles saíram pelas ruas dançando em celebração.
Segundo pesquisadores, o gesto foi se repetindo nos anos seguintes como renovação de agradecimentos e promessas, e se consolidando como a Marujada, ligada ao ciclo maior do festejo de São Benedito, que só foi canonizado pela Igreja Católica em 1807. Hoje, o festejo em Bragança, cidade do interior do Pará, vai muito além do sagrado. O evento cristalizou-se como um símbolo de devoção e identidade, pertencimento e resistência cultural.

Há quem diga que a Irmandade tinha uma função dupla: além da fé, funcionava quase como uma empresa de fachada, cujo objetivo principal era juntar dinheiro para comprar a alforria dos escravizados irmãos. Atualmente, a Irmandade da Marujada e a Diocese colaboram para a realização anual da festividade, sendo que cada qual se responsabiliza pelos ritos e práticas de suas respectivas esferas de atuação. O poder público municipal também participa, sobretudo viabilizando a infraestrutura e logística de segurança e transporte nos dias dos eventos.
Origens
O período das celebrações ocorre em 18 a 26 de dezembro, quando acontece o novenário, os eventos associados à festa, as danças da Marujada e a solene procissão. O ponto alto é 26 de dezembro, dia de São Benedito na cidade, feriado local.
Mas a preparação acontece meses antes, a partir de abril, quando as comitivas de esmolações partem em travessia por localidades e municípios, levando consigo a permanência de uma tradição secular, nas quais se arrecada parte dos recursos que serão utilizados em sua festa.
Por onde seguem, as comitivas não passam despercebidas. O som dos tambores e da onça, que é um instrumento musical brasileiro, em conjunto com os demais artefatos de percussão, são ouvidos de longe pelos moradores das cidades, vilas e localidades, anunciando que São Benedito está passando. O objetivo é visitar as casas dos devotos que pedem e agendam a sua visita, e em torno do qual organizam as folias.
“Fomos de casa em casa, de devoto em devoto, atravessando municípios, longe, distante. Lá onde não vai carro, não vai moto, lá onde o acesso é de pés mesmo. Tudo por amor, tudo por devoção, tudo para não deixar acabar essa riquíssima devoção que nós temos por São Benedito e por essa terra chamada Bragança do Pará”, relatou José de Morais de Brito, o Zezinho, encarregado da comitiva.

Conforme a tradição, os moradores fazem ofertas ao santo e oferecem pousada para o grupo, doando certa quantia, animais de criação, farinha de mandioca ou até outras prendas. As ofertas, no geral, são entregues aos encarregados. Mas receber São Benedito também inclui oferecer refeições, como café, lanche, almoço e jantar aos que estiverem presentes na casa durante a visita. Afinal, São Benedito “representa comida farta. Onde tá São Benedito tem fartura, aí o pessoal chega e faz toda refeição, come e bebe. E no outro dia ainda tá sobrando!”, afirmou Zezinho. Dessa articulação, desde o começo do ano, resultam os recursos da festividade em dezembro.

O encerramento das esmolações ocorre às vésperas da Festividade/Marujada do Glorioso São Benedito. O percurso entre a casa do último promesseiro e a Igreja de São Benedito é chamado de entrada do santo no santuário. Nele, as mulheres da marujada novamente se encontram vestidas com as saias estampadas e as blusas de malha e a comitiva com suas opas amarelas. Ao chegarem, há celebração de agradecimento e bênção, onde instrumentos, trajes, bandeiras e a imagem do santo são recolhidas na paroquia. Na véspera, o encarregado da comitiva faz a prestação de contas à matriz do que foi arrecadado junto aos promesseiros e devotos.

Dança e ritmos
Um conjunto de sons e ritmos característicos da cultura africana e dos salões aristocráticos europeus dá o tom ao bailado de marujas e marujos. Com seus trajes típicos, eles manifestam a devoção ao santo. Ao mesmo tempo, representam um espetáculo cultural à parte nos lugares onde ela ocorre.
Com seu estilo próprio, a Marujada é sobretudo, um ritual de dança, que expressa tanto o caráter sagrado quanto o profano. Carregadas de significados, as danças são conduzidas pelas autoridades femininas da Irmandade, capitoa e vice capitoa, as figuras centrais em diversos momentos do ritual.
Raimunda do Socorro Tovany da Silva diz que iniciou sua devoção ao santo aos 8 anos de idade. “Foi como promesseira, desde criança observava muitas pessoas vestidas para a festa e sempre achei muito bonito. Minha mãe resolveu me aprontar para pagar a promessa devido a um problema de saúde e a partir de então sou até hoje”, testemunha.
A devota explica que a preparação para as apresentações começa no dia 12 de dezembro, com os ensaios que seguem até a noite do dia 24, ocorrendo apenas em dias pares. “O início da festividade acontece no dia 18/12 com a alvorada, onde é realizado o levantamento do mastro às 5h da manhã com todas as marujas e marujos se apresentando com o traje azul”, que busca homenagear o menino Jesus.

. Foto: Acervo pessoal de Raimunda
Já para Asafe Gomes, membro da marujada há 16 anos, ser um integrante vai muito além das vestimentas. Ele se faz presente não só na procissão, mas também na dança. “E ser um marujo, para mim, é passar até o ano inteiro a devoção a São Benedito, porque nós finalizamos uma festa e iniciamos outra”.

(foto: acervo Raimunda Tovany)
Como lembra Asafe, a participação da avó, que foi maruja, além da irmã dela, e da tia também, foram as principais motivações para entrada no grupo. “Para mim, a marujada é uma influência, o ano todo. Participo não só no período festivo, mas também nas apresentações em Bragança e fora dela, em eventos promovidos pelo Estado ou pela própria irmandade”. Hoje ele faz parte do quadro de marujos efetivos, participa das reuniões, e dos recriamentos que são promovidos, refere-se as encenações, representações de momentos da tradição da Marujada.
Asafe relembra que um dos momentos mais marcantes para ele ao fazer parte da manifestação foi o reconhecimento da Marujada como patrimônio cultural do Brasil, ocorrido em 2024. O marujo destaca a importância de preservar e transmitir essa cultura secular para atrair as novas gerações rumo ao espaço da irmandade, garantindo a continuidade do projeto que já soma mais de 227 anos de história.
Para ele, o grande diferencial reside na sua força comunitária. “O que torna a marujada de Bragança tão especial é esse caráter identitário da cidade. Você não vai ver em nenhum outro município algo tão forte para o povo”, orgulha-se Asafe, ao analisar como a tradição se promove no cotidiano local. “São Benedito, esse santo que está na cozinha, esse santo que está na sala, é o santo da alegria, é o santo da tristeza, é o santo que todo bragantino recorre”.

Tradicionalmente são oito as expressões dançantes da Marujada: a Roda, o Retumbão, o Chorado, a Mazurca, o Xote, a Valsa, a Contradança ou Bagre e o Arrasta-pé.
Almoço dos juízes
O casal de juízes inicia seus mandatos ao receber o bastão símbolo da função em 1° de janeiro, permanecendo com eles até o período seguinte. A atribuição dos festeiros inclui participar dos eventos da Marujada, ações sociais, festas e atividades ao longo de todo o ciclo. A primeira tarefa é a de servir um café da manhã no primeiro dia do ano para a Marujada e demais participantes.
Na festividade, é convencionado que cada um deve oferecer um almoço aos marujos nos dias 25 e 26. Anualmente, se o magistrado assume a refeição do dia 25, a juíza se responsabiliza pela do dia 26. Para a próxima edição, a ordem se inverte: o almoço dela antecede o dele.
No Teatro Museu, a Marujada dança até o almoço. Simultaneamente, o Salão Beneditino sedia o leilão de donativos de esmolação e ofertas. Às 15h, o juiz e a juíza reúnem-se no templo para a louvação que antecede a procissão. Às 16h, seguida por uma missa campal, após a qual a imagem de São Benedito retorna ao andor.
Eles regressam ao Teatro Museu e dançam até as 23h. a Marujada encerra a festa com a derrubada do mastro, roda na igreja e benção do padre. Muito disputado, o cargo de juiz e juíza não reflete apenas promessa a São Benedito, mas também o prestígio e a visibilidade social que geram uma longa fila de pretendentes.
Cavalhada
A cavalhada em Bragança é um rito competitivo realizado a cada ano no dia que antecede a festa de São Benedito e da Marujada, em 25 de dezembro. Organizada por cavaleiros que vêm das regiões dos campos ou dos interiores próximos do município, no ritual o objetivo é alcançar, sobre o cavalo em velocidade, as diversas argolas expostas em caminhos armados ao longo de um corredor.
A competição ou circuito tem início com a preparação do competidor. Ela ocorre no período da tarde, sendo pela manhã concluída toda a estrutura necessária para o evento. Embora os participantes estejam com o traje que comumente identifica o marujo, nem todos se consideram como tal. Tampouco estão ali para pagar uma promessa, mas todos se dizem devotos de São Benedito.

(foto: Pedro Tobias/acervo do INRC Marujada)
Dia de São Benedito
No caso da festividade do Glorioso São Benedito de Bragança e da Marujada, o principal dia é 26 de dezembro. Nessa data, o sol vai nascendo com o estourar de foguetes que anunciam a saída de marujas e marujos. A concentração se inicia na casa da capitoa, que os recebe com um café da manhã como forma de acolhimento aos que, logo nas primeiras horas do dia, a acompanham de pés descalços e em silêncio pelas ruas da cidade, com seus tradicionais trajes de cor vermelha.
Desde cedo, a orla da cidade e o Largo de São Benedito vão sendo ocupados por centenas de pessoas que se avolumam próximas à Igreja do Glorioso São Benedito. Até o final do dia, tornam-se milhares os que ocupam esses espaços e as ruas em seu entorno e, principalmente, aquelas que compreendem o percurso da procissão solene, que se inicia às 16h e termina com a chegada do Santo no mesmo Largo e a missa campal, já à noite.
No Largo de São Benedito, uma multidão se encontra para prestar sua homenagem, agradecer, rezar, suplicar proteção e pagar promessas. Como esclarece Raimunda, “a nossa festa não representa só uma festa cultural, mais sim que a devoção a São Benedito tem uma história de resistência do povo negro que muito lutou contra a escravidão e que São Benedito representa essa resistência.”

(foto: Pedro Tobias/acervo do INRC Marujada)
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.