Voz Literária · Quem vive conta

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Muito além das penas, a história que mantém viva a identidade do Maranhão

Caboclo de Pena une fé, memória e tradição cultural maranhense com raízes

Isabella da Hora

A frase dita por Jhonatan Oliveira resume uma trajetória que ultrapassa o universo do Bumba Meu Boi. “A minha vida literalmente foi por um boi” O que começou como uma promessa feita pela família para salvar a vida de uma criança tornou-se uma missão de preservar uma das manifestações culturais mais importantes do Maranhão. Hoje, mais do que vestir o traje do Caboclo de Pena, esse personagem representa uma tradição. Pesquisar sua história e levar esse conhecimento para diferentes espaços, demonstra que a cultura popular precisa ser contada por quem a vive.

Caboclo de Pena em batizado ritual sagrado de iniciação e proteção. (foto: Emerson Baixada)

No Bumba Meu Boi, o Caboclo de Pena é um personagem marcante. Com sua indumentária composta por um grande cocar de penas coloridas, movimentos ágeis e presença imponente, ele chama a atenção do público por onde passa. Mas, para Jhonatan, esse personagem vai muito além da beleza das apresentações. Apaixonado pelo Bumba Meu Boi desde pequeno, ele cresceu acompanhando as brincadeiras em suas rotinas e convivendo com o avô, Humberto de Maracanã, uma das grandes referências de sua formação cultural. Aos dez anos de idade, porém, sua vida mudou completamente.

Em 2007, Jhonatan sofreu um acidente grave e correu o risco de perder uma das pernas. Após dias de tratamento sem melhora, os médicos informaram à família que a amputação seria inevitável,caso seu quadro não evoluísse. Diante da possibilidade de perder o movimento e, consequentemente, o sonho de continuar brincando boi, sua avó fez duas promessas. A primeira, ao Menino Jesus, para que ele pudesse participar da Festa do Divino como Rei. A segunda, a São João: se o neto fosse curado, dançaria de Caboclo de Pena pelo resto da vida.

Na véspera do prazo dado pelos médicos, Jhonatan conta que teve um sonho do qual guarda apenas algumas lembranças. Ele recorda imagens, cantos e pessoas que não consegue explicar completamente. No dia seguinte, sua recuperação surpreendeu toda a equipe médica. Segundo ele, um dos médicos chegou a dizer à sua avó: “Mãe, eu não sei o que a senhora está fazendo, mas continue, porque está dando certo.”


Jhonatan sendo filmado para um curta da série Encantados. (foto: Jonas Sakamoto)

A perna foi salva, e a promessa também. Desde então, Jhonatan nunca mais deixou de dançar. Ao longo dos anos, percebeu que aquela promessa representava muito mais do que um agradecimento por um milagre. Era também uma responsabilidade. Depois da morte do avô Humberto, sentiu que precisava continuar o legado da família dentro do Bumba Meu Boi. Mesmo tentando seguir outros caminhos profissionais, sempre acabava retornando ao Caboclo de Pena. “Parecia que alguma coisa me chamava”, relembra.

Foi essa inquietação que o levou também à pesquisa. Desde 2017, Jhonatan entrevista brincantes, conversa com mestres e busca compreender a origem e os significados do personagem. Durante esse percurso, descobriu que não existe uma única explicação para o Caboclo de Pena. Para ele, cada grupo possui sua memória, sua tradição e sua forma de compreender esse personagem.

Registro

Essa valorização das narrativas locais também aparece no trabalho de Jonas Sakamoto. O fotógrafo e documentarista escolheu Jhonatan como protagonista de um dos curtas da série Encantados, que retrata os personagens da cultura do Bumba Meu Boi. Segundo ele, a escolha não aconteceu por acaso. Foi durante uma conversa com o grafiteiro Gil Leros, conheceu a trajetória de Jhonatan e descobriu sua preocupação em garantir que a cultura maranhense fosse narrada por quem realmente faz parte dela.

O fotógrafo explica que Jhonatan demonstrava incômodo ao ver pessoas de fora chegarem ao Maranhão, permanecerem poucos dias e produzirem conteúdos que nem sempre representavam a realidade da cultura popular. Esse compromisso com a autenticidade fez com que ele fosse escolhido para protagonizar o documentário.

Ao longo das gravações, o diretor também percebeu que o Caboclo de Pena possui um significado diferente de outros personagens do Bumba Meu Boi. Enquanto figuras como o Kazumba transitam por aspectos ligados ao imaginário e ao fantástico, o Caboclo de Pena carrega uma forte relação com a ancestralidade indígena, o pertencimento e a ocupação dos territórios. Para o documentarista, o Maranhão abriga inúmeras identidades culturais.

Pequeno recorte do curta Encantados: Caboclo de Pena, São Luís (2026). (foto: Jonas Sakamoto)

“Muita gente não percebe, mas existem muitos Maranhões dentro do próprio Maranhão.” Essa diversidade motivou a construção do filme, que buscou transportar o Caboclo de Pena para diferentes espaços da cidade, provocando reflexões sobre memória, identidade e respeito às tradições. As gravações aconteceram em locais que fazem parte da trajetória de Jonathan, como a Feira do Mangueirão, a Praia do Olho d’Água, a Cohab, o bairro do Maracanã e um terreiro tradicional da região.

Mais do que registrar imagens bonitas, o curta procurou construir uma experiência sensorial. Sons de pássaros, vento, batuques, maracás e o característico tambor-onça foram incorporados à narrativa para transportar o público ao universo vivido pelos brincantes. O som chega junto com a imagem. Muita gente se preocupa apenas com o visual e esquece que a cultura também é feita de sons”, explica o fotógrafo.

Se para o fotógrafo o Caboclo de Pena representa identidade coletiva, para Jhonatan ultrapassa qualquer definição. Segundo ele, o personagem não existe apenas durante as apresentações do Bumba Meu Boi.

Caboclo de Pena parcialmente descaracterizado em frente a Casa das Minas. (foto: Isabella da Hora)

“O personagem é só uma representação. O Caboclo literalmente sou eu, é você, é quem acredita.” Para Jhonatan, o Caboclo de Pena está presente na memória dos antepassados, nos ensinamentos transmitidos entre gerações e na relação que cada pessoa estabelece com sua própria história.

Hoje, além de brincar boi, ele atua no teatro, no cinema, na televisão, no rádio e nas redes sociais. Sua intenção é aproximar novos públicos da cultura popular e mostrar que preservar tradições também significa ocupar novos espaços de comunicação.

Registro feito no dia de São Marçal no bairro do João Paulo, São Luís. (foto: Jonas Sakamoto)

“Percebi que quem realmente faz o boi quase não estava na internet. Então eu me propus a contar essa história.” Ao vestir o cocar de penas, ele não representa apenas um personagem. Carrega consigo uma promessa feita por sua avó, a memória do avô Humberto, a história de seu povo e o compromisso de manter viva uma tradição que atravessa gerações.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.