Voz Literária · Quem vive conta

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Parque Amazonas revela histórias, conflitos e mudanças

Moradores antigos relatam desafios do início e transformações vividas no bairro

Aylla Almeida

O bairro Parque Amazonas reúne histórias marcadas por desafios, mudanças e disputas ao longo de sua formação. Moradores antigos relatam as dificuldades enfrentadas desde a chegada ao local, a falta de infraestrutura nos primeiros anos e as transformações ocorridas com o crescimento da comunidade. Apesar dos avanços, problemas como a precariedade de serviços e conflitos relacionados ao território ainda fazem parte da realidade de quem vive na região.

Paisagem atual do fim da tarde no bairro Parque Amazonas. (foto: Aylla Almeida)

A história do Parque Amazonas, em Imperatriz (MA), é marcada por ocupações, deslocamentos e pela busca por melhores condições de vida. Entre as décadas de 1980 e 1990, o bairro passou a receber famílias de povos originários vindos principalmente das Terras Indígenas Bacurizinho, em Grajaú, e Araribóia, em Amarante. Segundo estudos sobre a Aldeia Badú Guajajara Urbana, esse processo foi impulsionado pelo avanço do agronegócio sobre os territórios tradicionais, pelo aumento dos conflitos fundiários e pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelas comunidades indígenas do interior do Maranhão.

Linda Henrique Costa, uma das moradoras mais antigas entrevistadas, vive no bairro desde 1972. Ela conta que chegou ao local porque não tinha casa própria e precisava de um lugar para residir. Na época, o Parque Amazonas era formado por poucos barracos e quase nenhuma estrutura urbana. “Eu não tinha casa pra morar, então vim morar pra cá”, relata. Segundo ela, apesar das dificuldades, a convivência entre os habitantes sempre foi tranquila. “Sempre me dei bem com todo mundo aqui”, afirma.

Décadas depois, outras famílias continuaram chegando ao bairro. Foi o caso de Cleude Saraiva Lima, que se mudou para o Parque Amazonas em 1996, após enfrentar constantes alagamentos na região onde morava anteriormente. Ela lembra que, ao chegar, encontrou uma realidade bastante diferente da atual. “Era só mato”, recorda.

 A falta de serviço de abastecimento e rede elétrica fazia parte do cotidiano dos moradores, que precisavam improvisar para garantir serviços básicos. Cleude afirma que sofreu muito com essa situação e lembra que a rede elétrica era precária. “A energia era gambiarra. Se alguém ligasse três televisões, acabava a energia da rua.” A água também exigia sacrifícios diários. Segundo ela, era preciso acordar de madrugada para aproveitar o pouco tempo em que o abastecimento funcionava. “Eu tinha que acordar três horas da manhã pra lavar roupa, porque seis horas já não tinha mais água.”

Marcelina de Araújo Alves viveu realidade semelhante. Moradora do bairro há cerca de 20 anos, ela descreve a primeira fase do Parque Amazonas como um período de muitas dificuldades. “Era bem precário quando eu cheguei, bem no começo mesmo”, conta. Segundo Marcelina, as casas eram simples, geralmente construídas em madeira, e havia poucas edificações na região.

A energia e a água também dependiam de adaptações feitas pelos próprios residentes. “A energia era gambiarra e a água também era gambiarra, puxada por mangueira”, relembra. Ela explica que os moradores improvisaram as ligações necessárias para garantir o abastecimento. “Eles puxavam cano pela avenida e cada um fazia sua ligação.”

Marcelina Alves aproveitando o fim de tarde na calçada de casa. (foto: Aylla Almeida)

Vivências do Bairro

Apesar das dificuldades estruturais, os entrevistados guardam lembranças positivas da convivência comunitária. Cleude afirma que uma das coisas de que mais sente falta são os vínculos construídos ao longo dos anos. “O que eu mais gostava era das pessoas, das amizades que eu tinha aqui.” Ela também recorda o clima de tranquilidade que existia na região. “Eu gostava do clima, era bem calmo.” Os finais de semana eram marcados por festas e encontros que reuniram moradores de diferentes partes do bairro. “Tinha seresta, tinha bar, todo final de semana tinha movimento”, lembra. Hoje, ela admite sentir saudades daquele período. “Tinha muita zoada, isso eu sinto falta.”

Os grupos juninos também ocuparam um espaço importante na memória dos moradores. Marcelina conta que as festas movimentavam toda a vizinhança, reunindo famílias, apresentações culturais e comidas típicas. “Tinha quadrilha aqui no bairro. Era melhor do que hoje, tinha mais movimento”, afirma. Segundo ela, as ruas ficavam cheias durante os festejos e a participação da comunidade era intensa.

As memórias dos moradores também revelam um período marcado pela violência. Antes da presença dos grupos criminosos, os conflitos aconteciam principalmente entre bandos de bairros diferentes. Cleude recorda que muitos jovens evitavam circular por determinadas regiões por medo de confrontos. “Naquele tempo não era facção, eram gangues e quem morava aqui não podia ir pro outro bairro, tinha risco de morrer”, relata.

A criminalidade também estava ligada ao consumo de drogas. Segundo ela, furtos eram frequentes e objetos desapareciam facilmente. “Você deixava uma cadeira na porta e quando voltava já não tinha mais.” Marcelina também lembra desse contexto e afirma que os conflitos eram diferentes dos atuais. “Era mais pancadaria, não era tiro como hoje.”

Superação Pessoal

Entre as histórias de superação presentes no bairro, a trajetória de Cleude chama atenção pelo esforço dedicado à formação de sua própria moradia. Trabalhando como cozinheira e empregada doméstica, ela reuniu recursos ao longo dos anos para erguer a residência onde vive atualmente. “Essa casa eu fiz praticamente sozinha, sem ajuda”, afirma.

A moradora conta que trouxe tábuas da Vila Ipiranga para iniciar a construção e enfrentou inúmeras dificuldades financeiras ao longo do processo. “Eu trabalhava nas cozinhas dos outros e eu me levantava três horas da manhã”, relembra. Hoje, a casa representa não apenas uma conquista material, mas também o resultado de anos de dedicação e luta.

Entardecer revela cotidiano em rua do bairro Parque Amazonas. (foto: Aylla Almeida)

Ao longo dos anos, o Parque Amazonas passou por transformações significativas. As primeiras melhorias estruturais tiveram início nas gestões de Ildon Marques e Jomar Fernandes, que se alternaram no poder entre 1997 e 2008, com a abertura de ruas, a regularização da área e a instalação dos primeiros postes de energia elétrica. Na década de 2010, durante a gestão de Sebastião Madeira, foram executadas obras de saneamento básico, com a implantação de tubulações mais profundas.

Posteriormente, no governo de Assis Ramos (2017 a 2024), o bairro recebeu pavimentação asfáltica nas principais vias e ampliação da rede de esgoto. Essas mudanças contribuíram para melhorar a qualidade de vida dos moradores. Cleude reconhece que as condições do bairro evoluíram em comparação aos primeiros anos. Marcelina compartilha da mesma percepção e afirma que “hoje o bairro está mais desenvolvido”. No entanto, ambas destacam que ainda existem desafios relacionados à segurança pública e à qualidade dos serviços oferecidos à população.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.