20 anos de migração estudantil conectam interior do Pará e solo imperatrizense
Nathalia Monteiro
Na avenida Jarbas Passarinho, estrada principal de Bom Jesus do Tocantins, cidade do sudoeste paraense, o ronco dos motores das vans alinhadas no acostamento dita o ritmo das primeiras horas do dia. Entre o vai e vem de passageiros, o ponto de embarque vira um cenário de transição, com mochilas carregadas, abraços de despedida e o olhar fixo no horizonte de quem está prestes a cruzar a BR-222. Para muitos jovens bonjesuenses, entrar em uma daquelas vans significa mais do que percorrer os quilômetros que separam o interior do Pará do solo maranhense, é o início da travessia em busca de um diploma universitário na agitação de Imperatriz-MA.
A vocação para cruzar fronteiras em busca de algo novo faz parte da história do município desde sua fundação. Segundo a memória local, o morador mais antigo do município foi o maranhense Adão Alvino de Souza, que se estabeleceu por volta de 1962. Assim como o Adão da Bíblia, ele foi o primeiro de sua linhagem a habitar um território ainda sem história. Ironicamente, o fluxo que começou nos anos 1960, com maranhenses cruzando a divisa para fundar uma cidade paraense, agora se inverte, e são os filhos dessa terra que fazem o caminho de volta, desta vez em busca de conhecimento.

Bom Jesus é hoje um terreno fértil para a educação. Segundo dados do IBGE, a taxa de escolarização para crianças de 6 a 14 anos atingiu 99,13% no censo de 2022, alçando o município à 13ª posição no estado. Na prática, a cidade cumpre seu papel de base. O desafio se encontra na transição para a vida adulta. Sem um polo de ensino superior diversificado na região, os jovens se veem diante de um dilema. Para continuar estudando, é preciso ir embora. Esse caminho, embora hoje facilitado, já foi bastante árduo.
Sem a variedade de meios de transporte que existem hoje no município, as famílias duas décadas atrás se mobilizavam para alugar casas compartilhadas nas cidades vizinhas. “Na minha época era quem tinha dinheiro ou quem os pais se sacrificavam demais. Minha mãe já ficou com luz cortada para ter que pagar faculdade. Porque não era só a faculdade. Era aluguel, era comida, era deslocamento”, relembra a funcionária pública Laryssa Siqueira, de 42 anos, que mudou para Imperatriz em 2006 para cursar Administração na Faculdade Atenas Maranhense (Fama).
A saudade e o orçamento apertado eram compensados pelo espírito de comunidade nas repúblicas. Laryssa recorda os sufocos da rotina compartilhada com mais cinco meninas, três delas filhas ou sobrinhas de açougueiros de Rondon do Pará, o que garantia a fartura em casa. “A gente passava os últimos dez dias do mês só com carne e cuscuz. O povo pensava que a gente era rica, porque picanha e filé mignon não faltavam”, fala, aos risos. Mais do que um “perrengue chique”, aquela rotina compartilhada foi, para Laryssa, uma escola da vida. “Dividir é a coisa mais difícil do mundo. Dividir espaço, dividir dinheiro, dividir problemas, dividir personalidades. Você vira um outro ser humano depois que você divide espaço físico com outras pessoas”.
O amor fez Laryssa trancar o curso e pegar a estrada de volta para o interior do Pará, pouco depois da chegada de sua amiga de infância, Ivanete Menezes, de 52 anos. Quando Ivanete desembarcou em Imperatriz, em 2006, trazia o sonho do diploma de Educação Física, mas carregava o peso da distância da filha, que ficara sob os cuidados da avó.
Para aproveitar o tempo com a família em Bom Jesus, a jovem mãe viajava quase todo fim de semana, desafiando a logística restrita da época. “Quando eu pegava uma folga, eu pegava o sábado de folga. Quando não, eu ia sábado depois do expediente, chegava lá, passava só a noite do sábado, no domingo já tinha que vir embora super cedo, porque tal hora já não teria mais carro de volta para Imperatriz”, explica Ivanete. Para ganhar mais algumas horas ao lado da filha e da mãe, algumas vezes recorria ao improviso. “Eu cansei de ficar até o final do dia no domingo e arrumar um policial lá amigo meu, me colocar num caminhão, e vir embora para Imperatriz na boleia do caminhão”, lembra, aos risos.

O destino mudou com o falecimento de sua mãe, obrigando a então universitária a buscar a filha para morar com ela em Imperatriz. Mas o financeiro pesou, fazendo com que priorizasse a educação da menina. Ivanete trancou a faculdade e abriu mão do diploma, reconhecendo o vazio que a escolha deixou. “Você tinha um sonho que foi interrompido, não concluiu… por mais que você esteja bem hoje, fica sempre aquela lacuna”.
A decisão de não retornar ao Pará repetiu de forma invertida a sina da amiga, e o destino de Ivanete foi selado pelo coração, mas para fazê-la ficar. “Aí já é uma situação bem mais delicada, é o amor! Me apaixoneeei! (cantando) Eu me apaixonei pelo meu príncipe, pelo amor da minha vida, pai da minha segunda filha. Foi o motivo de permanecer e estar até hoje em Imperatriz”, declara. Hoje, ao olhar para a realidade de sua cidade natal, ela enxerga um cenário transformado, pois a nova geração de estudantes bonjesuenses encontra suporte e rotina que outrora não existiam.
Novas jornadas
Parte dessa nova geração é a psicóloga Jhuli Barbosa, de 28 anos. Enviada pelo pai para Imperatriz em 2014, ela enfrentou a transição de mentalidade de uma época em que Bom Jesus via a graduação como algo distante. “Quando eu estudava aqui não tinha esse negócio de ‘vou me formar, vou fazer isso, vou fazer aquilo’. É assumir os negócios do pai quando se tem, e se não tem você corre atrás”, recorda.

No início, Jhuli enfrentou a solidão, mas persistiu. “Eu ligava todo dia ‘Pai, vem me buscar, pai, você não me ama’. Fiz um jogo psicológico, ele nem atendia mais. Essa mudança me permitiu perder o medo de me afastar dos familiares. Foi difícil”. A psicóloga se graduou em 2022, já com um convite para voltar e trabalhar em Bom Jesus.
Enquanto Jhuli estava se formando e voltando para casa, a agora nutricionista Maria Clara Dias, de 22 anos, chegava em Imperatriz. Diferente do cenário do início do século, Maria deparou-se com uma cidade de âmbito acadêmico bem mais ampliado. Ela desistiu de uma vaga na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará para seguir sua vocação na área da saúde no Maranhão, impulsionada pelo desejo de cuidar do outro.
Na bagagem, trouxe o amparo de amigos e familiares. “Quando saí de Bom Jesus, já fui com tudo pronto, a igreja me deu tudo de início. Utensílios de casa, paneleiro… Quando a gente vem de um lugar bem pequeno, a comunidade, principalmente institucional, ajuda. Eu vim só com um colchão e um sonho para cá”, relembra.

Como nutricionista, Maria Clara compreende o valor simbólico do que colocamos no prato e sentiu o choque de estar em outro estado, mesmo que tão perto geograficamente. “Quando vim para cá e não tinha o açaí que a gente come lá, eu falei ‘O que é isso?’. Sinto falta do açaí, do sorvete que era puro. Engraçado que é tão pertinho, mas muda bastante”. A memória afetiva também encontra abrigo nos produtores locais. “Lá, como é cidade do agronegócio, tinha pequenos empresários. A dona Cintia vendia queijo com doce dentro. Toda vez que eu ia visitar, meus pais compravam queijo, requeijão ou manteiga de roça. Quando eu estava lá, era o que eu mais sentia falta”.
Por isso, sempre que retorna a Bom Jesus para visitar os pais, um de seus pontos de parada se tornou a feirinha local, que acontece quinzenalmente. “Eu gostei bastante quando fui na feirinha. E é muito bom querendo ou não, porque ajuda muito os agricultores. Chegou como um pontapé para alavancar a economia da cidade”, destaca Maria Clara, celebrando o comércio que resgata justamente essa identidade gastronômica e cultural que a formou.

A decisão de cruzar de volta a BR-222 ou fincar raízes definitivas em solo maranhense divide as escolhas dessa nova geração de profissionais. Para Maria Clara, a permanência em Imperatriz reflete o desejo de expansão na carreira acadêmica, aproveitando um mercado universitário mais ampliado. Já para Jhuli, o retorno para Bom Jesus foi o passo natural após a colação de grau em 2022.
A psicóloga vê na juventude atual os novos caminhos que o acesso ao ensino superior abriu, nos quais a busca pela faculdade privada noturna a partir do Prouni virou uma estratégia de sobrevivência e estabilidade. “Eles preferem investir no Enem nesse quesito de ter um desconto”, explica a psicóloga, apontando que ao optarem pelos cursos noturnos nos centros universitários mais próximos, como Marabá, os estudantes conseguem manter seus empregos em Bom Jesus e retornar para passar a noite em suas próprias casas, utilizando o transporte oferecido pela prefeitura.
O cenário atual contrasta com o encontrado por quem plantou as primeiras sementes da educação na cidade. A professora aposentada Clautilde Borburema lecionou de 1982 a 2012, enfrentando uma época em que o município sequer dispunha de professores graduados e ela mesma precisou cursar a faculdade em regime intervalado em Rondon do Pará para se especializar. “Antigamente não tinha essas oportunidades. Os alunos aqui ainda não tinham esse hábito de sair para estudar. Não tinha essa perspectiva”, lembra.
Hoje, as idas e vindas pelo asfalto da BR-222 reconfiguram as estruturas econômicas e sociais de Bom Jesus. Para quem passou 30 anos em sala de aula, a sensação é gratificante. “O aluno que sai para estudar, passa seus cinco, seis anos, e volta para poder atender a população de Bom Jesus. A comunidade agradece. Nossa cidade fica riquíssima”, celebra Clautilde. Na Avenida Jarbas Passarinho, as vans alinhadas, mochilas abarrotadas e abraços de despedida se repetem, e na estrada, independente de quem vai e de quem volta, todos carregam a história de Bom Jesus.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.