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Hino de Boituva (SP) ajuda a entender história e tradição da cidade

Cântico foi criado para, além de celebrar, recordar a trajetória percorrida pelo município

Thaina Ramos

“Terra abençoada e prometida, da fé que faz a força do labor”. Boituva, localizada no interior de São Paulo, a 122 km quilômetros da capital, foi descrita desta forma por aqueles que escolheram não se esquecer. Lá se vão quase 35 anos desde o dia em que Roberto Rosendo escreveu o hino, retratando uma cidade que, mesmo após inúmeras transformações, manteve a sua essência.

O autor consegue trazer em suas estrofes os melhores momentos da narrativa boituvense, documentando Boituva, que na língua Tupi Guarani significa “muitas cobras”. Passando de um pequeno povoado para enfim conquistar o seu lugar no mapa, o município comemora 89 anos da sua independência no dia 6 de setembro de 2026.

Quem chegou, ficou          

José Roberto Gil de Camargo, professor e morador de Boituva, relata que no período em que o hino foi escrito, a população tinha em torno de 23.140 moradores. “Uma cidade pacata e boa pra viver”. Hoje atinge um marco de 65 mil pessoas com um aumento de 84% em menos de 15 anos. “Eu acredito que nos finais de semana, chega até 80 mil habitantes por causa de chácaras e outros lazeres que têm”, especula Gil.

O hino representa a cidade, servindo de documentação para pesquisadores e recém-chegados, como no trecho: “No antigo bairro Campo de Boituva, desbravadores chegando aqui”. Apesar de historicamente rico, é contraditório ao levantar o momento em que tudo começou. “Havia vários povos indígenas que não se tem registro, provavelmente como no resto do estado ou foram empurrados pra outra localidade ou eles foram exterminados”, critica Gil.

O bairro Campo de Boituva não é visto como patrimônio histórico, afastado da cidade ele pertence ao meio rural. “Perdeu bastante da sua arborização, graças a vários empreendimentos imobiliários, infelizmente”, aborda Gil. O município levantou muitas áreas urbanizadas, atingindo os polos rurais que estão perdendo seus aspectos campestres. “Lógico que tem seus problemas, como todas as outras cidades, mas muitas pessoas vieram e ficaram”.

Estação Cultura Antônio Alves Barbosa de Boituva-SP, após a reforma em 2022. (foto: Reinaldo Cardoso Ramos)

Trem de ferro

Cristiane Alves cresceu em contato direto com a ferrovia. O pai, ferroviário, permitia alguns luxos, como passes de graça. “Éramos quatro meninas, e meus pais economizavam para fazermos algum passeio”. Ao buscar o trem na memória, todos relatam com entusiasmo um detalhe primordial: não há quem tenha viajado e não comente. “Tinha um som metálico sequencial como uma orquestra, uma batida um pouco mais aguda, e outras duas mais graves, ocas, provavelmente do mecanismo nas rodas do vagão”, comenta Cristiane. Ainda que os comboios tenham parado de transportar passageiros, o seu ruído persegue quem o tenha escutado. “Ouvi um guitarrista que conseguiu fazer um som similar uma vez”, brinca.

José Luiz Bettini ou Zé Betinni como é conhecido, chegou em Boituva em 1960. “A memória da ferrovia é importante, porque trouxe tudo pra cá”, esclarece. Passou longos períodos da sua vida com o balançar do trem. “Principalmente na época quando eu lecionei em Mairinque [SP], era professor da rede estadual”, revela Zé.

Com a modernidade se instaurando essa situação mudou. “Boituva começou a concentrar o comércio, a indústria, isso porque não era nem município”, informa Zé. A ferrovia tinha como método de eficiência usar uma velocidade padrão, garantindo o avanço da cidade. “O trem de ferro da Sorocabana fez o progresso chegar aqui”, como diz o hino. Se tratava de viagens longas, percursos como o de São Paulo que hoje levam 1 hora e meia, duravam 3 horas. “Mas que era confortável, era. Principalmente viajando no luxo”, graceja Zé.

A ferrovia, nos seus horários de trem, foi o trilho de muitos reencontros e despedidas. “Tornava um ambiente festivo, bonito de se ver, as pessoas chegando, carregando e descarregando malas, os parentes se cumprimentando”. Um único local retém tantas lembranças e histórias. “Era uma festa a estação”, recita.

Existiam três tipos de transportes. O mais rápido, parava em todas as estações. “Nós chamávamos o trem japonês, que eram os subúrbios”, expõe Zé. A segunda classe fazia um longo percurso até São Paulo. “O pau de arara, que era banco de madeira”. Vinha, da Bolívia, Santa Cruz de La Sierra, e passava por toda região. “O que era gostoso de viajar era o luxo, confortável, todo fechadinho”, ilustra Zé.

Quando a ferrovia foi privatizada e depois desativada, os funcionários foram realocados. “Eram uns trabalhadores bem remunerados e pra eles fez muita diferença”, comenta Bettini. Muitos encontraram emprego na rede estadual, serviços bem diferentes dos quais estavam acostumados.

Telefonista, Marisa da Silva Amaral, hoje com 67 anos, trabalhou na administração. “Naquela época, viajar era gostoso”. Morou na casa que a ferrovia entregava, localizada na beira da linha. “Balançava um pouco, ninguém se incomodava, era muito peculiar, lindo e emocionante”, destaca Marisa.

Corredor da estação, onde ocorrem as exposições culturais da cidade. (foto: Reinaldo Cardoso Ramos)

Ainda na sua infância, comentou viajar muitas vezes. “Minha avó não queria ir de ônibus de jeito nenhum, só andávamos de trem”. Naquele tempo, os vagões tinham passado por grandes mudanças. “Andava cheio, as vezes era difícil achar lugar, mas ninguém podia viajar em pé”, frisa Marisa.

Lavouras

Tiago Moretti nasceu na zona rural de Boituva. Seus parentes, assim como outros imigrantes, chegaram no município no século XX. “Vieram trabalhar aqui na região, de meeiro, não eram empregados”. Os acordos previam que quando o combinado estivesse perto do prazo final, eles poderiam adquirir parcelas do terreno. “Foram comprando, melhorando de vida, não tinha energia elétrica, estrutura”, acentua Tiago.

Com essas repartições, as grandes fazendas foram se subdividindo, trocando de proprietário. “Daquela época são poucas as famílias que ainda têm terras na área rural de Boituva”, reforça Tiago. E quem permaneceu com seus trabalhos no campo hoje tem um retorno financeiro melhor. “Posteriormente, as terras foram sendo vendidas”.

Imigrantes, que vinham principalmente fugindo de guerras, se alocaram próximos às fazendas. “A vida dessas pessoas era muito precária, casas simples, na maioria das vezes até de madeira, barro”, comenta Tiago. Boituva mostrou toda a sua hospitalidade acolhendo-os. ‘Na época a cidade criou fama com as lavouras do abacaxi, depois o algodão e hoje a cana”, segue o hino.

Com a tecnologia, a vida das pessoas no campo otimizou. “Hoje todo lugar tem internet, tem energia e estradas”, prossegue Tiago. As plantações evoluíram como no hino, sua grande maioria cana e soja. “Antigamente, pra preparar o solo, o pessoal desmatava, queimava, e daí vinha com arado de boi, tombava a terra e plantava”, instrui Tiago.

 O plantio, como todas as áreas, modificou-se, passando do uso dos adubos químicos para orgânicos “Uniram-se a indústria e o comércio, os ideais do agricultor”, registra o hino. Agora se aproveita a palha que se decompõe para plantar. “Na atual tecnologia, não tomba mais terra porque a maioria é feito com plantio direto”, ensina Tiago.

Zona rural de Boituva-SP, bairro Campo de Boituva. Terra de grande plantio. (foto: Thaina Cardoso Ramos)

Ainda assim, em alguns casos a técnica não sustenta o plantio. “O algodão não teve muito sucesso, mas foi altamente lucrativo”, evidencia Tiago. Uma praga assolou as lavouras e, com isso, os agricultores optaram por abandonar as terras. “Plantava e ele germinava, na hora de florar o algodão morria”. Em contrapartida, o abacaxi perpetuou até os anos 1970 e 1980. “Acredito que o abacaxi e o algodão eram plantados em mesmas quantidades, porém em áreas diferentes”, lembra Tiago. A cana, por sua vez, teve força com o crescimento das usinas. “Nos anos 1980 teve um crescente do plantio da cana de açúcar”, situa Tiago.

Boituvana

Rosangela Galera, participante efetiva da festa, conta que a primeira edição foi no Gamitão, o estádio da cidade. “Isso faz muito tempo, eu devia ter acho que uns 15 anos”. A Boituvana, por ser um momento cívico, exigia o compromisso de participar do desfile. “Se sentia orgulhoso de ir desfilar, podia tá debaixo de sol, de chuva, a um vento frio que doer”, exclama Rosangela. A festividade abria espaço para os jovens, sendo um dos poucos momentos em que podiam desfrutar. “Era comemoração pela cidade, orgulho de ser Boituva”, expressa Rosangela.

Aparecida Sônego Pico, secretária da escola Coronel José Campos de Arruda Botelho, conhecido Grupão, também apresenta lembranças saudosas. “Era uma data especial a comemoração do aniversário de Boituva, todo mundo se arrumava pra ir”, afirma a secretária. Criado antes da independência da cidade, o Grupão tem comparecido em todos os desfiles. “Tinha o baile, tudo de longo e terno”, aponta Aparecida.

Odair Pico, dono de lanchonete, tinha um fascínio pelo desfile dos cavaleiros. “O povo te dedica uma semana a Boituvana, que é tradição”, propaga o hino. A montaria que ainda ocorre, agora divide o dia com o rodeio. “O feriado é dia 6, que é aniversário da cidade Depois, dia 7, é independência, emenda tudo, era uma semana”, explica Odair. Quem presenciou essas mudanças tem um olhar diferente. “Agora diminuiu, três dias, depende do feriado, que dia que cai”, queixa-se Odair.

Águia da Castelo

A rodovia Castelo Branco foi inaugurada em 10 de novembro de 1968 e representa um grande marco para a cidade. “Teve um aumento populacional e também no número de empresas”, comenta Gil. Sendo um município originalmente agrícola, a ferrovia e a rodovia serviam principalmente para escoar produtos derivados da agricultura. “A industrialização que estava em crescente até 2002, teve um aumento urbano bastante destacado”.

A frase “a Águia da Castelo se engalana”, é destacada no hino. Protagoniza festas, porque é orgulho dos antepassados. “Quando Boituva era menor, você olhava para a cidade, ela tinha o formato de uma águia, à margem da rodovia”. Essa característica é celebrada, ainda que não possua mais o formato. “A águia de Castelo se enfeita para comemorar a emancipação dessa linda cidade que eu moro”, declara Gil.

 Com a desativação do trem, em 2001, o município percebeu os impactos urbanos. “Não foi planejada para o crescimento que teve”, confessa Gil.  Aos poucos a cidade foi perdendo seu aspecto de interior e, atualmente, Boituva tem novas perspectivas de futuro. “E faz do teu presente uma certeza, que hoje és glória regional!”, conclui o hino.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.