Voz Literária · Quem vive conta

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Memória de Padre Josimo se mantém viva pela arte, música e celebrações

Quatro décadas após o assassinato do mártir, sua história segue em renovação

Jéssica Oliveira

Paôla Macedo

“Ninguém chorará por mim”. Quarenta anos após seu martírio, contrariando seu Testamento Espiritual, o legado de Padre Josimo se mantém vivo por meio de músicas, arte, poemas, saraus, celebrações e romarias organizados por comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Em 2018, na mesma escadaria que foi assassinado, foi inaugurado um memorial em sua homenagem.

Padre, poeta, professor, filósofo, tocador de violão e jogador de futebol. Filho de dona Olinda. Josimo Morais Tavares, nasceu em Marabá no Pará em 5 de abril de 1953, na beira do rio Araguaia, no período da Páscoa. Aos 11 anos, em 1964, entrou no seminário. Em 10 de maio de 1986, Dia das Mães, foi assassinado aos 33 anos, enquanto subia a escadaria da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Imperatriz (MA).

Josimo segurando fotos do seu Toyota após a primeira tentativa de assassinato em 15 de abril de 1986. (foto: Arquivo Diocese de Imperatriz)

Sua morte foi encomendada por conta de seu engajamento político-pastoral frente à violência e grilagem na região do Bico do Papagaio, que compreende o extremo norte do estado do Tocantins, na divisa com os estados do Pará e Maranhão.

Em seu Testamento Espiritual, escrito após a primeira tentativa de assassinato, quando cinco tiros foram disparados contra seu Toyota, em 15 de abril de 1986, ele escreveu: “Agora estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? (…) Eu pelo menos nada tenho a perder. Só tenho pena de uma pessoa: de minha mãe, que só tem a mim e mais ninguém por ela (…) A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras. (…) Morro por uma causa justa”.

Na data do ocorrido, o jornalista Edmilson Sanches, então repórter do jornal O Imparcial, escreveu a matéria “Paciência tem limite”. “Soube que o texto foi republicado em jornais de outros Estados brasileiros”, informou em entrevista recente . Sanchez relembra que a morte do padre teve um grande impacto. “A notícia ganhou repercussão mundial”. Na época, chegou a auxiliar jornalistas do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro; da revista Veja, da Folha de S. Paulo, do O Estado de S. Paulo, entre outros, indicando laboratórios locais em Imperatriz para a revelação rápida dos filmes fotográficos a fim de serem escolhidas e enviadas a jornais no Sudeste do País.

Legado em música

A história de Josimo inspirou algumas canções, como O Culpado (1992), de Valdir Teles e Severino Feitosa, que contém os versos “Até padre, por dinheiro, foi morto em Imperatriz (…) Ninguém quer ser o culpado, das misérias do país”. Já a música Renascerá – Samba Para Josimo (1987), de Zé Vicente, tem o refrão “Renascerá, renascerá, o teu sonho, Josimo”. De um novo destino renascerá!”. E Cicatriz, de Paulo Maciel, do álbum Chão sagrado (2021).

Paulo Maciel no show Canções-semente, que ocorreu 18 de junho de 2026 no Teatro Ferreira Gullar. (foto: Paôla Macedo)

Morador de Imperatriz há 30 anos, o músico, escritor e professor Paulo Maciel relembra que, quando chegou na cidade, o padre já havia sido assassinado, mas que mantém uma forte conexão com sua história. “O meu contato com ele é mais afetivo, de memória, como é que chama isso? A memória dele me seduziu, aquilo que ele fez, o que ele defendia, a vivência.” Apesar de ter ouvido falar do crime, que ocorreu em 1986, ainda era muito novo, seu contato mais profundo se deu graças ao Centro de Estudos Bíblicos, “Meu contato mais de mergulho, mais espiritual, foi no CEBI. As pessoas começaram a partilhar a vivência dele, colocando-o como parte da nossa história, da nossa vivência, e aí foi me seduzindo e tal”.

Em 2012, sem maiores intenções, Paulo compôs a música Cicatriz. “Eu lembro exatamente o dia que estava sentado olhando para a lua, sentei e comecei a dedilhar o violão e me veio essa necessidade de fazer alguma coisa pra ele”. Parte da inspiração foi a expressividade de Dona Olinda, mãe de Josimo, que o cantor encontrou algumas vezes. “Tem uma parte que fala: ‘Olinda, o teu olhar, mãe serena, a serenidade do olhar da mãe, vive em ti. O filho com a mãe vivendo’. Paulo a descreve como uma mulher frágil, mas com um olhar marcante. “Ela olhava para a gente com energia, com sentimento.”

CEBI

O CEBI é uma organização sem fins lucrativos que promove a leitura popular da Bíblia, sem fundamentalismos religiosos, interpretando de acordo com a realidade social presente e em defesa da vida. A entidade foi implantada no Maranhão por volta do final dos anos de 1970 e acompanhou os movimentos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Teologia da Libertação no Brasil.

No meio dos intensos conflitos agrários no Maranhão, os padres, freiras e agentes de pastorais protestantes viram a necessidade de algo que ajudasse a população empobrecida a entender a Bíblia, não como conformismo, mas como um tipo de mensagem de libertação. A tendência se espalhou pelas dioceses do interior até chegar em Imperatriz, onde atua diretamente na preservação da memória de Padre Josimo, preparando romarias anualmente, em especial no mês de maio, como forma de marcar a data do seu martírio. Elas celebram o legado e memória de Padre Josimo, e a luta e resistência de outros lavradores e ativistas que perderam a vida em conflitos agrários. Protestar contra a violência no campo, e a expansão descontrolada do agronegócio, são seus maiores intuitos.

A 19ª Romaria foi sediada em Imperatriz, na paróquia Cristo Salvador, e seu lema foi: “Justiça e paz hão de reinar: Terra, teto, trabalho e pão”. As edições seguintes, de 2025, com o lema “Ecologia Integral: Cuidar da Vida!”. E em 2026, carregou um peso histórico por ter sido a edição de 40 anos do assassinato de Padre Josimo, tendo por temática “40 anos de martírio: ‘Igualdade, Terra, Água e Moradia'”, ambas foram sediadas em Buriti e São Sebastião, no Tocantins.

O CEBI, em conjunto com a CPT, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e as dioceses locais são responsáveis por realizar essas romarias, eventos públicos e vigílias. A organização é encarregada por direcionar o memorial em honra ao Padre Josimo, e também foi responsável por ter a iniciativa de que esse espaço fosse concretizado.

Detalhe da obra em madeira de Antônio Alexandre que se encontra no Memorial Padre Josimo. (foto: Jéssica Oliveira)

O memorial fica localizado na escadaria de entrada do Centro Diocesano de Pastoral de Imperatriz Maranhão, no local onde o sacerdote foi assassinado na data de 10 de maio de 1986. Foi oficialmente inaugurado em 2018, no dia de seu martírio. O acervo conta com uma instalação artística criada pelo artista Antônio Alexandre, fotografias históricas e objetos pessoais do próprio padre, como seus livros, violão e sandálias. Além disso, fica à disposição para a comunidade realizar visitas.

Beatificação

Ariston De França, poeta, professor e advogado, relata que durante o Sínodo para a Amazônia no Vaticano, em outubro de 2019, bispos de dioceses da região do Bico do Papagaio, apresentaram a ideia de beatificação do mártir ao falecido Papa Francisco. Ao ouvir Dom Giovane Pereira de Melo, de Tocantinópolis (TO), diocese onde Padre Josimo pertencia, e Dom Vilson Basso de Imperatriz (MA) relatando sobre a história, entrega do sacerdote em defesa dos lavradores oprimidos e os mais desfavorecidos, o pontífice incentivou os bispos com a frase: “Faça o pedido, comece!”.

Bispos apresentando ao Papa Francisco o pedido de beatificação do mártir durante o Sínodo para a Amazônia. (foto: divulgação)

O processo de canonização avança por via jurídica do martírio por ódio à fé, sendo uma modalidade que não exige a comprovação de um milagre para a beatificação. O foco é provar que ele foi morto por fidelidade ao Evangelho e pela defesa dos direitos dos camponeses pobres. Atualmente a causa segue passando por fases burocráticas e canônicas necessárias. Além disso, Ariston afirma que a comunidade deve se fazer presente nesse processo: “É não deixar a memória morrer. Correr atrás de alguma situação que o Padre Josimo fez que se tornou um milagre”.

Desafiando limites

Josimo também foi homenageado em uma cena da apresentação da Junina Arrasta Pé de 2026, cujo tema foi Babaçuar, em referência ao coco babaçu. Além disso, sua história foi retratada por meio de documentários. Josimo – O Padre negro de sandálias surradas (2016), resgata sua trajetória por meio de relatos com pessoas que conviveram com ele, amigos, membros do MIQCB e sua mãe, Dona Olinda.

Já o curta-metragem Na Terra Devastada (1988) foi produzido no contexto do primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), lançado no período da redemocratização. Além da luta de Josimo, o documentário também aborda outros temas como o racismo sofrido pelo padre, a resistência da UDR em frente à reforma, relatos de camponeses e as várias dimensões da violência na região do Bico do Papagaio.

Uma das homenagens mais memoráveis ao padre foram os versos do poema A Morte Anunciada de Josimo Tavares, escrito em maio de 1986 por Pedro Tierra. O trecho mais famoso é: “Quem é esse menino negro? Que desafia limites? Apenas um homem.  Sandálias surradas. Paciência e indignação (…) Lutou contra cercas.  Todas as cercas. As cercas do medo. As cercas do ódio. As cercas da terra.  As cercas da fome. As cercas do corpo. As cercas do latifúndio. Trago na palma da mão um punhado de terra. Que te cobriu. Está fresca. É morena, mas ainda não é livre como querias”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.