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Expansão urbana de Imperatriz prejudica a arborização

Falta de cobertura vegetal afeta o clima e o futuro ambiental do município

Josué Dino

“Seco”. “Muito quente, né?”. “Abafado”. “Penso que o aquecimento global é mais quente aqui em Imperatriz do que nos outros lugares do mundo”. É assim que moradores descrevem o clima de Imperatriz, no Maranhão, cidade conhecida como Portal da Amazônia. Há mais de três décadas na Vila Redenção, o aposentado Miguel Portela afirma que a redução da arborização transformou a paisagem urbana e contribuiu para o aumento da sensação térmica. Segundo ele, áreas que antes eram ocupadas por mangueiras e vegetação deram lugar ao asfalto e às construções, alterando o clima e a qualidade de vida da população.

Diante dos problemas de arborização da cidade, o efeito climático El Niño e as decorrentes obras de infraestrutura que acabam desmatando as poucas áreas verdes, o engenheiro florestal Dalton Ângelo, que estuda a arborização de Imperatriz desde 2014, destaca que a cidade cresceu de forma desenfreada e sem um plano adequado e até hoje não existe um planejamento urbano.

“Existe hoje, sim, um déficit, só dentro de Imperatriz, de aproximadamente 80, 90 mil árvores. Estou falando dentro da sede da cidade, não de bairros mais isolados e áreas rurais”, analisa Dalton. Ao abordar o planejamento da arborização urbana, o engenheiro afirma que falta planejamento, investimento e o trabalho conjunto com a comunidade. “Corta-se tudo e não se planta nada. Entender a percepção da população para plantar espécies adequadas para que diminua até a depredação. E a comunidade pode ajudar a cuidar, não adianta só botar as árvores”.

Segundo Dalton, as alterações climáticas contribuem para o aumento das temperaturas e períodos prologados de estiagem. O especialista explica que o evento climático El Niño intensifica os períodos de seca, favorece a ocorrência de queimadas e reduz a umidade relativa do ar. Como forma de minimizar esses impactos, defende o planejamento ambiental, a preservação das áreas naturais e a ampliação da arborização urbana, destacando que a presença de árvores é essencial para melhorar a qualidade de vida e tornar a cidade mais resiliente aos efeitos das mudanças climáticas. “Quando começa a ficar mais quente, vem enchentes e as pessoas começam a associar isso com falta de árvores, além de outros aspectos, aí dá valor”, reforça o especialista.

Paisagem Transformada

Ao comentar os impactos da duplicação da BR-010 devido ao desmatamento desenfreado de uma das poucas áreas verdes da região urbana do município, Dalton defendeu que as intervenções em obras de infraestrutura devem ser acompanhadas por medidas de compensação ambiental. Em sua avaliação, a madeira proveniente da supressão das árvores poderia ser destinada a pesquisas, instituições de ensino ou à população, em vez de ser descartada.

Ele também ressaltou que projetos dessa natureza devem prever o replantio de árvores em quantidade suficiente para compensar a vegetação removida, além da criação de canteiros centrais arborizados e de áreas de convivência, como parques lineares, que contribuam para a recuperação da paisagem urbana.

O especialista observou, ainda, que a arborização existente às margens da BR-010 é irregular, mas continua desempenhando importante papel ambiental. Segundo Dalton, muitas das árvores presentes na região pertencem a espécies exóticas, como a Albizia, de nome científico Albizia lebbeck e também chamada de coração-de-negro ou faveiro.

Essas espécies poderiam ser substituídas gradualmente por mata nativa de porte semelhante, mais adequadas às características da flora local. “Quando as copas vão se encontrando ao longo dos anos, você passa por um túnel verde. Isso sim seria um cartão postal para Imperatriz”, projeta Dalton.

Desenvolvimento Sustentável

Ao falar sobre as perspectivas para o futuro da cidade, o especialista alertou que, sem um planejamento urgente voltada ao semear de árvores adequadas, Imperatriz poderá enfrentar o agravamento de problemas ambientais e sociais. Em sua avaliação, a elevação das temperaturas, a piora da qualidade do ar e o crescimento de doenças relacionadas ao clima tendem a comprometer a qualidade de vida da população e até a produtividade econômica do município.

O especialista também defendeu que a arborização seja tratada como parte de uma política pública, sendo necessário ampliar as iniciativas nas escolas e fortalecer a conscientização da população, com a atuação conjunta do governo municipal e estadual, por meio de medidas contínuas e efetivas.

Obras para a duplicação da BR-010 geraram polêmica com corte de árvores. (foto: Ketcia Freitas)

Memória Local

Elma Monteiro moradora próxima do local, relembra que, onde hoje está localizada a Rua C, uma parte mais alta do bairro Vila Lobão, era cheia de mangueiras. Segundo Elma, naquela região havia um ponto de encontro dos jovens. “Reunia aquela meninada da época e nós comíamos muito com sal, tanto a manga, como a tanja. Fazia aquela coisinha de pimenta do reino Arisco caseiro”, relembra com entusiasmo.

Devido a um problema de pele, Elma conta que tem uma roupa específica para resolver assuntos do dia a dia. “Porque sei que o sol é intenso”, desabafa. A moradora também lembra que a área onde hoje está localizada o Brasil Novo era pouca ocupada e possuía grandes quantidades de mangueiras. Quando era criança, Elma costumava ir com a mãe colher mangas a até fugiam do gado. “Era o nosso lazer! A gente vai lá pra Beira-Rio brincar? A mãe ia pegar manga e estrume e nós ia se divertindo e chupando manga no caminho”

Além disso, Elma afirma que a paisagem do bairro mudou significativamente ao longo dos anos. Ela relembra que no passado havia diversas serrarias na região, cuja intensa atividade mantinha uma fina camada de pó de madeira suspensa no ar durante boa parte do dia. Segundo a entrevistada, o funcionamento constante dessas madeireiras era uma característica marcante da época, quando a área ainda era pouco urbanizada e concentrava grandes empreendimentos do setor madeireiro.

Ao fazer um apelo às autoridades, Elma defendeu a criação de mais áreas verdes e espaços públicos arborizados em Imperatriz, como forma de amenizar o calor e melhorar a qualidade de vida da população. Ela relatou que, ao passar por diferentes bairros, costuma encontrar terrenos baldios, acúmulo de lixo e imóveis abandonados. “Por que que uma autoridade não chega num local desse e não faz um ambiente, tipo uma praça com bastante árvore?”, questiona a moradora.

A entrevistada também recordou uma visita a Marabá, no Pará, onde conheceu uma praça com árvores frutíferas, experiência que a encantou e que segundo ela, poderia servir de exemplo para Imperatriz. Em sua avaliação, além de oferecer sombra e conforto térmico, espaços desse tipo aproximam a população da natureza e valorizam a cidade. Por isso, afirmou que seu principal pedido às autoridades seria o investimento na criação de mais áreas arborizadas, especialmente em espécies que produzem frutos.

Poda inadequada de árvore no bairro imperatrizense Vila Lobão. (foto: Josué Dino)

Poder Público

A Secretaria Municipal do Meio ambiente foi procurada para comentar sobre os pontos abordados nessa reportagem, mas até o momento não houve resposta. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) divulgou uma nota oficial na qual garantiu que o projeto prevê compensação financeira ao município, além de um plantio de mais de 8 mil mudas. Porém, a Justiça Federal determinou a paralisação da supressão de árvores na região até que a prefeitura e o DNIT comprovem a regularidade das licenças ambientais.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.