Açaizal Grande: a história, fé e as transformações de um povoado maranhense

Comunidade preserva tradições enquanto enfrenta desafios do desenvolvimento

Clarice Tolentino

Localizado na zona rural do município de Senador La Rocque, no Maranhão, o povoado Açaizal Grande guarda uma história que antecede 1966 e foi construída a partir da coragem, da fé e do esforço coletivo de famílias que decidiram permanecer em uma região cercada por mata fechada e marcada pela total falta de políticas públicas.

No início, segundo relato dos moradores mais antigos, não havia estrada, energia elétrica ou serviços básicos. O deslocamento era feito a pé ou com auxílio de animais, e o cotidiano seguia o ritmo do trabalho na roça, da solidariedade entre vizinhos e da adaptação às dificuldades impostas pelo isolamento.

As primeiras casas eram simples, feitas de taipa e cobertas de palha. A escola funcionava de maneira improvisada, ora em residências, ora na pequena capela do povoado, também construída com barro e madeira. Moradores lembram que, apesar das limitações, a comunidade se organizava para garantir o aprendizado das crianças. “Naquele período, a gente estudava em qualquer casinha que aparecia ou na capelinha’’, recorda Rosimar Brasil Silva, ressaltando a falta de estrutura adequada.

A paisagem natural era um dos principais elementos do cotidiano. Havia mata densa, árvores de grande porte e um brejo de águas limpas, utilizado para banho, lavagem de utensílios e até pra consumo. Dona Rozinha, como é conhecida na comunidade, relembra com emoção esse tempo: “A água era tão limpa que dava pra enxergar os peixinhos nadando enquanto a gente lavava as vasilhas”. Segundo ela, a degradação ambiental ocorrida ao longo dos anos transformou completamente esse cenário, resultado, em suas palavras, da ação humana desordenada.

 Espiritualidade

A fé sempre ocupou um papel central na organização social do Açaizal Grande. Todos os anos, Inácio Arraiz Filho e sua esposa, Maria das Dores Alves Arraiz, se responsabilizam pela celebração em honra a Santa Luzia, padroeira dos olhos. A tradição atravessa gerações e reúne moradores antigos e os jovens. Mesmo com a substituição da antiga capelinha por uma igreja construída, o significado da celebração permanece o mesmo: um momento de devoção, encontro, reafirmação da identidade coletiva e da fé. Para os moradores, manter essa tradição é preservar a própria história do povoado.

Celebração em honra a Santa Luzia, padroeira dos olhos, acontece todo mês de dezembro ( foto: Elizabete Arraiz)

Outro destaque do calendário cultural local é a tradicional cavalgada, realizada em setembro. A festa, organizada por Edinaldo dos Santos Nascimento e sua família, atrai moradores, cavaleiros e visitantes de povoados e cidades próximas. O evento, tradição profundamente enraizada na cultura local, reúne moradores de todas as idades, é um dos momentos mais esperados do ano. “A cavalgada une toda a região, é a maior cavalgada de toda região’’, afirma Francisco Rosa.

Antes mesmo do amanhecer, homens, mulheres e jovens se organizam, selam seus animais e se preparam para percorrer o trajeto que atravessa estradas de terra e áreas rurais do povoado. Mais do que um simples desfile, a festa se transforma em um encontro comunitário, no qual famílias se reencontram e antigos amigos se reveem.

Registro da VII Cavalgada de Açaizal Grande, que aconteceu em 2019 (foto: divulgação Prefeitura de Buritirana-MA)

Muitos consideram o evento como uma forma de preservar a identidade do povoado, mantendo viva a memória dos antepassados que dependiam dos animais para o trabalho na roça e para chegar na  cidade. Ao longo do percurso, moradores se reúnem nas portas de casa para assistir à passagem dos cavaleiros. A cavalgada termina com uma grade festa, marcada por muita música e celebração.

Mudanças Estruturais 

Com o passar dos anos, algumas melhorias chegaram ao povoado. A estrada, antes formada apenas por areia e lama, recebeu intervenções que facilitaram o tráfego de motos e carros. Maria das Dores lembra que, antes dessas mudanças, “a gente só andava de pé ou de animal, saía de madrugada para chegar na cidade”. Ela reconhece que ainda existem problemas, especialmente relacionados à qualidade da água e à infraestrutura.

Hoje, o Açaizal conta com escola construída, atendimento médico semanal, pequenos comércios e farmácia. Essas mudanças alteraram a rotina dos moradores e reduziram parte das dificuldades enfrentadas no passado. Ainda assim, os desafios persistem. O jovem Renan Nascimento da Silva aponta que o estabelecimento de ensino apresenta sérios problemas estruturais. “Quando dá uma chuva, parece que não tem teto, cai goteira pra todo lado”.

Moradoras como Dona Rozinha ressaltam que, embora existam dois poços comunitários, a água não vai pra todas as casas do povoado, e que a comunidade ainda precisa de mais investimentos. Ela afirma que a estrada continua sendo um problema. “No verão é poeira pra todo lado. No inverno, a lama e os buracos dificultam a locomoção”, reclama. Para ela, o desenvolvimento precisa chegar de forma mais equilibrada, considerando as reais necessidades da população local.

Entre os moradores mais antigos está Inácio Arraiz Filho. Seu Pequeno, como é conhecido no povoado,  reside no Açaizal há mais de 54 anos. Agricultor durante toda avida, ele representa uma geração que construiu a comunidade com trabalho árduo, enfrentando longas caminhadas, transporte precário e poucas oportunidades. Sua trajetória se confunde com a própria história da comunidade, marcada pela persistência e pela resistência diante das dificuldades.

Ao final, o Açaizal Grande segue sendo um território de memórias, desafios e sonhos. Um lugar onde o passado não é esquecido, mas serve de base para pensar no futuro. Inácio resume esse sentimento em poucas palavras:  “Sempre trabalhei de roça. Hoje não trabalho mais como antes, mas a vontade de trabalhar eu tenho”. É nessa disposição, passada de geração em geração, que o povoado continua existindo, resistindo e buscando novas transformações.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.