Artistas e técnicos relatam dificuldades e defendem a cultura como resistência
José Matos
Imperatriz é reconhecida regionalmente pelo crescimento econômico e pela força do agronegócio, mas profissionais ligados ao teatro indicam que esse avanço não se reflete de forma equivalente no setor cultural. Limitações estruturais, dificuldade de acesso a recursos públicos e ausência de políticas culturais permanentes aparecem como obstáculos recorrentes para quem atua na área. Um produtor cultural, um diretor teatral e o técnico do Teatro Ferreira Gullar descrevem um cenário marcado por improviso, instabilidade e permanência da atividade artística apesar das adversidades.
Para Witembergue Gomes Zaparoli, também conhecido por “Berg”, 45 anos, de Imperatriz-MA, produtor cultural, professor, historiador e docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), um dos principais entraves enfrentados por artistas está no percurso feito pelos recursos destinados à cultura. De acordo com ele, mesmo quando existem verbas previstas em leis de incentivo, o dinheiro leva tempo para chegar a quem produz arte diretamente.

A atividade teatral em Imperatriz se desenvolve de forma contínua, porém marcada pela informalidade e pela dependência de iniciativas individuais. Grupos, diretores e técnicos atuam, em grande parte, sem vínculos permanentes com políticas públicas, o que faz com que muitos projetos tenham duração limitada. Nesse cenário, o teatro se mantém a partir de esforços pontuais, editais esporádicos e do trabalho voluntário de artistas e profissionais da área técnica.
“Até o recurso chegar no artista, existem vários atravessadores. Infelizmente, cada atravessamento come uma fatia da pizza, restando migalhas para quem de fato faz arte”, afirma Berg, ao comentar a execução de políticas públicas voltadas ao setor cultural.
Recursos
A ausência de uma política cultural estruturada aparece como um ponto recorrente nos relatos. Segundo os entrevistados, editais e leis de incentivo representam avanços importantes, mas não garantem estabilidade ao setor quando não há continuidade. A execução irregular desses mecanismos faz com que artistas alternem períodos de atividade intensa com longos intervalos sem apoio institucional.
Ao analisar o modelo de gestão cultural, Berg avalia que o poder público ainda trata as manifestações artísticas como atividades pontuais, concentradas em eventos específicos. Para ele, essa compreensão restringe o desenvolvimento artístico local. “Quem está na gestão entende cultura como espetáculo. Mas quem está na ponta precisa de seguridade, formação e manutenção”, explica.
O produtor também menciona a falta de continuidade nos investimentos. Como exemplo, cita as quadrilhas juninas, que recebem apoio concentrado em períodos determinados do ano, geralmente no mês de junho, e depois permanecem sem incentivo. Segundo Berg, essa lógica cria um vazio econômico e produtivo ao longo dos meses seguintes. Ele acrescenta que o investimento em cultura também gera retorno financeiro. “A cada R$ 1 colocado na cultura, volta R$ 1,75 em impostos”, destaca.
Infraestrutura
As limitações também se manifestam na estrutura física dos espaços culturais. O diretor teatral e ator na Cia de Artes Ruah, Victor Sabbag Nascimento, de 31 anos, nascido em Imperatriz, afirma que o Teatro Ferreira Gullar, principal palco da cidade, nem sempre dispõe dos equipamentos necessários para determinadas produções.

“Hoje, o teatro nos oferece basicamente a estrutura física. Para manter a metodologia de um espetáculo musical, nós precisamos alugar som, luz e levar toda a estrutura de fora”, relata. Segundo ele, essa condição aumenta os custos das produções e restringe a realização de espetáculos mais elaborados.
Victor também comenta sobre a relação com o público. Na avaliação do diretor, parte da plateia ainda não possui o hábito de frequentar apresentações teatrais, o que influencia o comportamento durante os espetáculos. “O único contato com arte que elas têm é quando nós estamos lá”, diz. Ele acrescenta que a atividade teatral não garante sua principal fonte de renda, o que evidencia a instabilidade do trabalho artístico.
Além das limitações estruturais, a vida na arte envolve uma rotina que ultrapassa o momento da apresentação. Ensaios, preparação técnica, divulgação e formação de público fazem parte do processo, geralmente sem remuneração fixa. De acordo com os entrevistados, a maior parte dessas atividades ocorre fora dos horários convencionais e depende da disponibilidade pessoal de quem atua no teatro.
Bastidores
Nos bastidores do Teatro Ferreira Gullar, Antônio Francisco Rego, conhecido como Chico, 59 anos, de Campo Maior- PI, veio ainda muito criança para Imperatriz, e atua há cerca de 30 anos como técnico responsável pela iluminação e manutenção dos equipamentos. Ele relata que a rotina do espaço envolve constantes adaptações diante da escassez de recursos financeiros.

“Uma lâmpada específica de teatro, quando queima, custa mais de R$ 300. Temos que nos virar nos trinta”, conta. Segundo Chico, o teatro é administrado pela Associação Artística de Imperatriz (Assarti), e mantém suas atividades principalmente por meio do aluguel do espaço para eventos.
O técnico descreve situações inesperadas enfrentadas no cotidiano, como falhas em equipamentos e a necessidade de soluções improvisadas para garantir o funcionamento do teatro. Apesar disso, ele revela que permanece na função pelo vínculo com o trabalho. “O dinheiro é uma mixaria, mas a gente faz porque gosta”.
Os profissionais também destacam o papel social das artes cênicas na cidade. As apresentações funcionam como espaços de encontro e reflexão, principalmente para públicos que têm pouco acesso a atividades culturais. Nesse contexto, o teatro acaba assumindo uma função educativa, ainda que esta não seja formalmente reconhecida pelas políticas culturais locais.
Resistência
Mesmo diante das limitações estruturais, financeiras e administrativas mencionadas, os entrevistados convergem na ideia de que o teatro continua ativo em Imperatriz graças à persistência de quem atua no setor. Chico segue responsável pelos bastidores técnicos, Victor mantém produções em circulação e Berg aposta na capacidade de transformação da cultura.

“A arte tem o poder de água. Ela vai ali lentamente, galgando seus espaços, fazendo seus contornos. Em algumas brechas, ela vai provocando efeito de transformação. Quando ela avoluma, ela já revoluciona os espaços”, afirma Berg.
Ao reunir relatos de diferentes áreas da produção teatral, a reportagem evidencia um setor que funciona de forma contínua, mas com apoio limitado. A permanência das atividades depende, em grande parte, da atuação direta de artistas, técnicos e produtores culturais, que mantêm o teatro em funcionamento mesmo diante da ausência de políticas públicas permanentes.
No fim, o recado que fica para Imperatriz não é de passividade. Como enfatiza Berg, o momento exige uma distinção clara entre “esperar e agir”. O convite não é para esperar sentado, mas seguir na certeza de que a água, cedo ou tarde, romperá a represa. “Podemos estar vivendo exatamente o momento em que a arte passa a avolumar, para quando o efeito transformador ocorrer, não ter mais como voltar atrás. É só aprimorar. Vamos esperançar!”
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.