Imperatriz garante calendário cheio em 2026, após reconstrução institucional
Johann Bastos
O Imperatriz, tradicional representante do futebol da região Tocantina, atravessou nos últimos anos um processo que deixou marcas profundas na história do clube. O rebaixamento para a Série B do Campeonato Maranhense, somado às instabilidades administrativas, financeiras e estruturais, aproximou o Cavalo de Aço do momento mais delicado de sua existência recente. Para a cidade, a queda não foi apenas um revés no campo esportivo: tornou-se um abalo emocional para uma população que reconhece no time um pilar simbólico da identidade local.

Durante esse período, Imperatriz (MA) viveu a sensação de perder algo que sempre esteve enraizado no cotidiano de sua gente. Em bairros como Bacuri, grande Santa Rita, Vila Lobão e nos arredores do Frei Epifânio, a ausência de boas notícias refletia o sentimento de incerteza enfrentado pelos torcedores. A cidade parecia respirar mais baixo, como se aguardasse um sinal de que o clube, enfim, reencontraria seu caminho.
A reestruturação, no entanto, começou de forma silenciosa e dedicada. Dentro do clube, funcionários, atletas e dirigentes iniciaram uma reorganização necessária para que o Imperatriz voltasse a competir com dignidade. Pequenas mudanças na gestão diária, da logística das viagens à organização dos treinos, foram fundamentais para a retomada da confiança. A reconstrução envolvia mais do que estratégias técnicas, uma recomposição moral.
Após o rebaixamento para a Série B Maranhense, em 2023, o Imperatriz iniciou um processo de reformulações internas, mudanças na gestão e uma reaproximação gradual com a torcida. Em 2024, o clube voltou a competir com mais estabilidade, alcançando uma campanha sólida que recolocou a equipe na disputa pelo acesso.
Já em 2025, o Imperatriz confirmou o retorno à elite estadual e garantiu, como consequência desse desempenho, um calendário completo para 2026, que inclui: a Copa do Brasil, a Pré-Copa do Nordeste, o Campeonato Maranhense e a Série D do Brasileiro. Essa sequência de participações marca o fim de um ciclo de instabilidade e o início de uma nova fase esportiva e institucional.
Força da torcida
Nenhuma renovação do Imperatriz seria possível sem o envolvimento de sua torcida. Entre os muitos personagens desse momento, um nome se destaca: Joanir Pires da Rocha, torcedor emblemático do Cavalo de Aço. Presença constante no Frei Epifânio, ele acompanhou o clube nos períodos bons e ruins, e sua voz reflete o sentimento coletivo de resistência. “A gente sofreu junto. Ver o Imperatriz cair foi ver uma parte da cidade desabar, mas nunca deixei de acreditar. Quando o time mais precisava, eu estava lá. Era pouca gente no estádio às vezes, mas a gente fazia barulho como se tivesse mil”, conta Joanir, com os olhos cheios de memória.

Segundo ele, o período mais difícil serviu para reafirmar o amor pelo clube: “Ser torcedor do Cavalo de Aço é ser resistente. A gente não desiste da nossa história. Quando vi o time de novo disputando em alto nível, senti que a cidade tinha levantado junto.”
A fala de Joanir resume o impacto social e emocional do clube. Mais do que acompanhar partidas, a torcida do Imperatriz cria laços, constrói identidade, se reconhece na cor vermelha que pulsa nas arquibancadas. A força dessa coletividade foi decisiva para manter o clube vivo enquanto as estruturas internas eram reorganizadas.
Gestão e planejamento
Se a torcida manteve o coração pulsando, a diretoria precisou reorganizar a cabeça. O presidente do clube, Wagner Ayres, teve papel determinante na recuperação do Imperatriz. Em um cenário de dificuldades financeiras, desgaste institucional e desconfiança externa, sua postura buscou unir firmeza administrativa e sensibilidade social. “Assumir o Imperatriz naquele momento foi um desafio enorme. O clube precisava de estabilidade, mas também de escuta. Antes de tomar qualquer decisão, eu precisei entender o que a cidade e o clube pediam”, explica o presidente.

Segundo ele, a prioridade inicial foi reorganizar as finanças, restabelecer a credibilidade com atletas e fornecedores e reconstruir a infraestrutura mínima para treinos e jogos. Ayres destaca ainda que a recuperação não se resume ao retorno esportivo: “O Imperatriz é patrimônio cultural da cidade. Nossa missão era devolver ao torcedor o orgulho de vestir a camisa. O calendário cheio para 2026 mostra que o trabalho deu resultado, mas o projeto continua.”
Outro personagem fundamental foi Jheimy da Silva Carvalho, ex-jogador do Imperatriz e hoje auxiliar técnico. Com passagem por diversas equipes do país, ele assumiu funções importantes na montagem do elenco que garantiu o retorno à elite maranhense. Jheyme lembra que, quando chegou ao clube para compor a comissão na Série B, encontrou um grupo disposto a lutar. Ele explica que seu papel foi “somar forças” ao trabalho já desenvolvido.

Segundo o auxiliar, a diretoria e a comissão buscaram atletas com perfil competitivo, capazes de compreender o peso da camisa e acreditar no projeto. Ele ressalta que sua experiência no futebol ajudou no processo de montagem do elenco, mas faz questão de enfatizar que “a resposta veio dentro de campo, fruto do trabalho coletivo”. Jheyme reforça o vínculo afetivo com o clube: “Como ex-atleta, ver o Imperatriz renascer me emociona. Trabalhar nessa reconstrução é como devolver um pedaço do que o futebol me deu.”
Novo ciclo
Com o calendário cheio assegurado, novas cotas financeiras e a presença em competições estaduais e regionais, o Imperatriz vive um momento de estabilidade rara na última década. A reorganização administrativa, a atuação técnica bem planejada e o envolvimento emocional da torcida criaram um ambiente favorável para que o clube volte a se consolidar no cenário esportivo maranhense.

O retorno não apaga as dificuldades enfrentadas, mas as ressignifica. Para quem esteve nos estádios, nos treinos e nos bastidores como foi o meu caso durante os três anos em que atuei como fotógrafo oficial, acompanhar essa reconstrução é testemunhar a força humana que sustenta o futebol de interior.
Para o presidente Wagner Ayres, o momento é de consolidar o que foi construído. Ele afirma que o clube entra em 2026 com a responsabilidade de manter a organização interna e de transformar o calendário cheio em oportunidades reais de crescimento. “Agora, o desafio é sustentar esse nível. O torcedor espera regularidade, e estamos trabalhando para isso”, afirma.
Jheyme também projeta a próxima temporada com cautela. Para o auxiliar técnico, o acesso recente foi apenas o primeiro passo: “O grupo sabe que o ano que vem será decisivo. Vamos enfrentar adversários fortes, mas temos condições de competir.” Já entre os torcedores, o sentimento é de expectativa. Joanir resume essa perspectiva: “A gente quer ver o Imperatriz firme. O que vier agora é consequência do trabalho.”
Com essas visões alinhadas, o Imperatriz entra em 2026 diante de um cenário desafiador, mas sustentado por planejamento, participação da torcida e um projeto esportivo que busca permanecer estável nos próximos anos.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.