Celebração que marca a memória afetiva, mantém viva a identidade do povoado
Kennedy Lopes
A Tradicional Festa de Férias surgiu em 20 de julho de 1964, com o propósito de promover o reencontro de amigos e familiares que retornavam à comunidade de Cocal. O povoado, localizado a 20 km de Cururupu, no Maranhão, teve sua celebração organizada, por muitos anos, pelo extinto Grupo Comunitário, formado por diversos moradores e liderado por Irene Freitas, falecida em 21 de abril de 2004.
No início de sua formação, o Grupo Comunitário estava vinculado à área da saúde e, por meio dele, foi implantado o posto Padre José de Anchieta, hoje conhecido como Unidade Básica de Saúde (UBS). Cerca de 30 pessoas integravam o coletivo, dedicando-se de forma árdua na realização do evento. Diante da necessidade de oferecer lazer às famílias que retornavam ao povoado durante o mês de julho, surgiu a manifestação popular com o intuito de fortalecer os reencontros e preservar os vínculos afetivos.
Paulo Henrique Reis é um historiador cururupuense que tem pesquisas voltadas para a historicidade, religião e religiosidade do município. Segundo ele, é importante analisar e compreender como os contextos históricos dos eventos dos povoados influenciam a identidade do povo da região e desempenham um papel fundamental na construção das recordações coletivas e na definição de pertencimento das comunidades.
“As festas populares fazem parte das tradições e da história das comunidades pesqueiras da região. Primeiro traz a noção de pertencimento à comunidade, segundo reafirma os laços sociais e familiares entre os moradores, além de gerar emprego e renda temporário para as famílias”, afirma Paulo, que também é professor de Filosofia em uma rede particular de ensino em Cururupu/MA.

Aos 80 anos, Maria da Conceição Pires Moraes, conhecida como Pajuda, é a única integrante viva da primeira formação do Grupo Comunitário. Ela relembra que o período foi marcado por muito trabalho e satisfação, destacando que participou do movimento por 18 anos. Maria conta que gostava de varrer o salão e preparar café para ajudar os presentes a se recuperarem da ressaca. Bem emocionada, pediu que aqueles que hoje estão à frente da organização mantenham a coragem e não deixem esse patrimônio cultural desaparecer.
O secretário de Cultura, Delvando Diniz, destacou que a Festa de Férias é um patrimônio de alta relevância para Cururupu e afirmou que sua inclusão no calendário oficial da cidade reforça a valorização dos costumes da população. “O evento não apenas celebra a história e as memórias da comunidade, mas também fortalece os laços sociais, promove o turismo e contribui para a economia local. A festa tem impacto direto na cultura municipal, preservando manifestações culturais”, declara Delvando.
Tradição
Ao longo de sua existência, a Festa de Férias desenvolveu um rito: as radiolas chegam na sexta-feira e, às 5h da manhã, começa a Alvorada, a abertura oficial, que tem a canção “Espinheira” como prefixo festivo, um ato musical que se estende há 61 anos. As outras músicas fazem menção à saudade, lembrança aos membros que já participaram, tornando viva a participação de cada um. “Desde quando esta festa surgiu, a tradição é a mesma. Sem Espinheira, não há Festa de Férias”, enfatiza Terezinha Lopes, a atual organizadora.
“Espinheira”, composta por Manoelito Nunes/Dalvan é uma música interpretada pela dupla sertaneja Duduca e Dalvan, de 1984, que aborda a luta diária do indivíduo comum para sobreviver em meio às adversidades da vida. A canção tornou-se um símbolo da perseverança e coragem de seguir mesmo diante das adversidades e da constante busca pela realização, como se cada passo doloroso fosse também um aprendizado necessário na travessia da existência.
“As pessoas que sempre nos ajudam são aquelas que acreditam nesta causa. Fazemos tudo com muita luta, esforço, mas sobretudo, com amor e zelo. Hoje, estou incluindo os filhos e netos, pois não quero deixar a festa acabar”, comenta Terezinha. Ela relembra que começou na organização aos 30 anos, completando 39 nessa lida. Terezinha revela que logo irá se afastar da organização, mas que sempre estará por perto, ajudando no que puder para dar continuidade a essa festa tradicional.

As chamadas radiolas, que fazem a sonorização, são uma das atrações principais da programação, pensada e planejada para oferecer o melhor desempenho nesses três dias festivos. Claudivan Pestana, responsável pela Princesa do Som, acredita que essas experiências promovem a união da comunidade e incentivam a participação popular, tornando a festa ainda mais viva e inclusiva.
“É super organizada, estruturada e reconhecida. As pessoas se organizam, retornam nesse período e algumas de outras cidades também vão prestigiar. Isso engrandece e fortifica. Quem não quer fazer parte de um festejo tradicional tão importante para Cururupu?”, conclui Claudivan.
Times de futebol e danças folclóricas também estão inclusos como parte do planejamento da festa. Karla Valverde, responsável pela dança portuguesa Anjos de Portugal, diz que ao longo de sete anos de apresentações, sempre fica na expectativa da chegada da data, aguardando com entusiasmo para mostrar o trabalho do grupo à comunidade, pois os dançarinos adoram participar, ainda mais em Cocal.
“É a melhor festa de tradição dos povoados de Cururupu, bem esperada por todos e dança gente nova e gente velha”, ressalta Terezinha, se referindo ao repertório eclético. “Agradeço a Deus por essa oportunidade de trabalhar nesta festa até hoje, pela força para lutar, não deixar ela cair. Sou apaixonada por ela. Enquanto Deus me der a vida, levarei comigo esperança e fé”, cita Terezinha, mencionando um trecho de “Espinheira”. Hoje, o festejo é visto não só como uma comemoração, mas como uma parte importante da herança cultural. Ele continua existindo graças à força e à união da população cocalense.

“As festas como a de Férias são eventos passados por gerações que buscam manter viva sua lembrança de pessoas que contribuíram para a comunidade local e dos jovens que desejam que esse evento não se perca com a modernidade e globalização da cultura”, cita o historiador Paulo Henrique.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.