
O movimento das quebradeiras se consolidou nos anos 1990, quando conflitos fundiários, desmatamento e avanço dos fazendeiros sobre áreas de babaçuais colocaram em risco o sustento de centenas de mulheres. A criação da Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip) e, posteriormente, do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), marcou o início de uma articulação que buscava garantir direitos, preservar o território e assegurar o acesso ao coco, elemento essencial da economia local.
“Eu sou quebradeira de coco desde que me entendi por gente”, afirma Raimunda Nonata Nunes Rodrigues, 70 anos, uma das integrantes mais antigas do movimento. A fala resume a relação entre as mulheres e o babaçu: mais do que atividade econômica, trata-se de um saber tradicional que atravessa gerações e carrega dimensões sociais, ambientais e identitárias.
Luta por acesso à terra e pelo reconhecimento
Antes da organização formal do movimento, episódios de violência eram comuns na região. Muitos fazendeiros cercavam áreas de babaçu e impediam que as mulheres entrassem para coletar os frutos, chegando a destruir palmeiras e restringir acesso a territórios tradicionalmente utilizados pelas quebradeiras. Em alguns casos, como relatam integrantes mais antigas, ameaças e agressões físicas fizeram parte desse período de tensão.
“Se você andar por aí encontra muitas caveiras”, relembra Nonata ao citar casos de violência sofridos por mulheres que trabalhavam em áreas contestadas. Sem proteção legal, a alternativa foi mobilizar-se. A criação das associações trouxe visibilidade à causa e ajudou a estruturar reivindicações que resultaram em conquistas importantes, como o reconhecimento da atividade, a proteção às áreas de coleta e o acesso a políticas públicas.
Conquistas que transformaram o trabalho das quebradeiras

IX encontrinho das quebradeiras no Piauí
crédito: MIQCB
A legalização do MIQCB, em 1995, ampliou a atuação das mulheres e possibilitou a aprovação de projetos voltados à melhoria das condições de trabalho. Uma das principais conquistas foi a chegada da máquina forrageira, que facilita a extração do óleo do coco babaçu, antes feita manualmente e com alto esforço físico. Cooperativas passaram a comprar a produção das quebradeiras, agregando valor e fortalecendo a economia local.
Houve também avanços na moradia e na formação comunitária: casas foram destinadas às cadastradas na associação e uma sede foi estabelecida em São Miguel do Tocantins, centralizando atividades culturais, educativas e administrativas.
O impacto não foi apenas material. O movimento também impulsionou processos de autonomia e fortalecimento feminino. “Tu tem que decidir hoje: ou eu ou a tua luta. Eu respondi: já está decidido, eu vou continuar lutando”, relembra Emília Alves da Silva Rodrigues, 68 anos, sobre o momento em que afirmou ao marido sua permanência na associação. A frase simboliza o empoderamento que emergiu das formações, palestras e vivências dentro do movimento.
Artesanato e identidade
Crédito: Mariana OLiveira
Além do coco como matéria-prima para óleo, carvão, sabão e alimentação, o babaçu tornou-se também base para o artesanato da região. Raimunda Nonata foi uma das responsáveis por transformar a casca do coco em peças como colares, brincos, botões e caneteiros. O conhecimento se espalhou e hoje integra a cultura local, com mulheres que já levaram seu trabalho para diferentes estados e até para fora do país.
“Do babaçu tudo se aproveita”, diz Nonata. A casca vira carvão, o fruto torrado se transforma em azeite, o leite de coco é preparado de forma artesanal e a palha cobre casas e construções de barro. É um ciclo completo de sustentabilidade e saber tradicional.
Memória e legado
Entre as figuras marcantes da luta das quebradeiras está dona Raimunda Gomes Silva, liderança do Bico do Papagaio que, durante décadas, atuou pela defesa dos direitos das mulheres. Após sua morte, em 2019, um memorial foi construído no povoado de Sete Barracas, preservando fotos, documentos e lembranças de sua trajetória. “O que mais me impressiona é como uma mulher sem estudo conseguiu chegar tão longe”, declara sua filha, Helena Gomes da Silva.
A memória de Raimunda se soma à de tantas outras mulheres que ajudaram a estruturar uma das mobilizações comunitárias mais fortes da região Norte e Nordeste. Hoje, suas sucessoras seguem ocupando espaços, participando de conferências e reivindicando políticas que garantam o acesso ao babaçu e a valorização do trabalho das quebradeiras.
Um modo de vida que resiste
A atuação das quebradeiras de coco babaçu permanece essencial para a economia, a cultura e a preservação ambiental da região. Sua organização coletiva inspira movimentos sociais em diferentes estados e permanece como exemplo de resistência, autonomia e protagonismo feminino.
A matéria sobre elas não se limita ao passado de luta, mas revela um presente de continuidade, inovação e identidade, um modo de vida que segue vivo pelas mãos e vozes dessas mulheres.