Por Barbara Cunha, Giovanna Paixão e Katherine Martins
Em um mundo onde a produção para o mercado predomina, a produção artesanal é algo bastante valorizado, principalmente para a economia local. As peças contém uma história – quer seja do artista, da cidade ou da comunidade, dentro do espaço tempo – uma imperfeição pode caracterizar o trabalho feito à mão, o que diferencia da produção industrial, pois ela decorre da vida, da criatividade e inventividade humana. Seja um tapete com um tingimento natural, uma joia com uma pedra lapidada à mão ou uma peça de cerâmica com uma textura orgânica, é a singularidade que atrai. Saber que uma peça foi feita à mão por alguém e com uma visão artística, não só a torna especial, mas diferente do produto industrializado.
A Setur-MA, através do Observatório do Turismo do Maranhão (Obstur-MA), revelou dados importantes sobre os artesãos do estado. Um levantamento, que analisou informações do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB), mapeou o perfil de 820 artesãos maranhenses entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024. O estudo oferece um panorama completo sobre o cenário socioeconômico, cultural e produtivo dessa categoria no Maranhão.
Os números mostram que a maioria dos artesãos maranhenses é composta por mulheres (88,1%), com idade predominante entre 36 e 60 anos. Essa atividade não só mantém vivos os saberes tradicionais, mas também é importante para a renda de milhares de famílias. A capital, São Luís, se destaca por abrigar o maior número desses profissionais, seguida por Paço do Lumiar e Imperatriz. Entre as técnicas, as mais utilizadas são crochê (46,49%), montagem (13,13%) e renda macramê (8,08%).
A artesã Lucilene Cardoso (51), moradora da cidade de Bela Vista no Tocantins, cidade vizinha de Imperatriz do Maranhão – separadas pelo rio Tocantins – trabalha com crochê, produzindo peças de vestuário como: vestidos e biquínis, dependendo da encomenda. Ela afirma seu amor pelo artesanato: “Para mim o artesanato é tudo, é uma história de vida, é quem eu sou. Se tirarem o meu artesanato, tiram a minha essência, a minha identidade, eu acho que tirariam tudo. Para mim, o meu artesanato é quem diz quem sou. Eu fico muito feliz, fico radiante quando finalizo uma peça e vejo o quanto ela ficou perfeita. E se ela não tiver ficado perfeita, se eu tiver errado um ponto ou dois e ela ficar com algum tipo de defeito que eu percebi que eu não gostei, eu desmancho toda a peça e recomeço fazer novamente porque é uma criação e ela tem que sair perfeita. Eu amo o crochê. O crochê para mim é tudo, é a minha história”.
Para muitos, o artesanato é uma fonte de sustento e ao transformar habilidades e paixões em produtos únicos, é possível para alguns artesãos e artesãs irem além da renda, permitindo realizações e, quiçá, até realizar um sonho. Essa atividade empodera especialmente mulheres, oferecendo flexibilidade e autonomia para conciliar a produção com outras responsabilidades familiares. Ainda sobre o levantamento da Obstur-MA, a atividade artesanal é a principal ocupação para 61,3% dos cadastrados do Sicab, dos quais 36,2% atuam no setor há mais de 20 anos, o que representa uma forte presença de tradição e experiência na área. Entre os principais motivos que levam ao ingresso na atividade, destaca-se a tradição familiar (35,24%), com aumento de 39%, e a habilidade inata com 29,39%.
Nas palavras de Lucilene: “Então, eu fazia uma peça aqui, outra ali e com o decorrer do tempo, eu fiquei pensando, além de eu trabalhar fora, eu posso fazer do artesanato, é, uma fonte de renda, né? Tipo uma renda extra para mim ganhar uns trocadinhos. Foi assim que eu comecei a pensar. Mas eu comecei a fazer um vestidinho aqui, outro sapatinho ali, um tapete aqui. E aí, eu já tinha encomendas. Encomenda aqui, outra encomenda ali e eu trabalhando fora, já tava ficando apertado. Eu sei que para resumir, eu criei meus filhos, cinco filhos que tenho, trabalhando fora e com o artesanato. Mas depois que meus filhos já estavam crescidos já, aí eu verdadeiramente fiz do crochê a minha fonte de renda exclusiva, porque eu parei de trabalhar para os outros, né, para fora e aí comecei a trabalhar só para mim no meu artesanato e daí eu continuei só fazendo e vendendo.”
Nos espaços destinados à exposição de venda de artesanato observamos a presença do artesão e através do artesanato podemos nos conectar a ele. Na medida em que visitamos as feiras de artesanato, galerias, ou diretamente nos ateliês físicos ou virtuais, muitas vezes é possível interagir com o artesão, entender o processo de produção artesanal e até mesmo ouvir a inspiração por trás da peça. Essa interação transforma a mera aquisição em uma experiência muito mais significativa, e pode ser um reconhecimento do talento e da paixão do artesão, além da partilha da memória e da história que acompanha a confecção dos produtos e a inspiração dos profissionais.
Rosário, artesã de Imperatriz, filiada à Associação dos Artesãos de Imperatriz, a ASSARI, conta como começou seu interesse pelo artesanato: “Como eu sempre gostei de tudo quanto é arte, entre bijuteria, todo tipo de trabalho artesanal, sempre me interessou porque eu venho de uma família que quase todos sabem fazer alguma coisa. Muitos já morreram, a minha tia, minha mãe é artesã, minha avó fazia muita coisa. E aí eu sempre fui apaixonada por natureza (…). Eu era criança, eu tinha 7, 8 anos e eu ajudei a minha avó, meus avós fazerem uma casa de taipa, que lá a gente chama de barro. E aí quando a gente separa, aí é difícil o trabalho. Aí eu peguei, eu resolvi é, aprender a fazer bijuteria, até porque eu já gostava, eu usava muito”.
A produção artesanal, diferente da industrial, ao pretender entrar no mercado tem de se adequar a determinadas exigências. Não só os mecanismos, como também os materiais utilizados no mercado precisam ser adaptados ao trabalho dos artesãos, como podemos perceber na declaração de D. Rosário: “O pessoal já perguntou: “Da onde é esse colar?” Ela disse: ‘Ah, minha amiga que faz, lá em Imperatriz, Maranhão, é uma biojoia’. Aí tudo isso é negócio, né? Gera renda, gera negócio, gera conhecimento. As pessoas vão conhecendo a nossa bijuteria, nossa bijuteria viaja, né?”
Através do turismo, o artesanato tem o potencial de sair do ‘local’ para o ‘global’. E é nesse mercado, que é difícil conviver com a produção industrial. Assim, os artesãos precisam atender a demandas diversas e inventar formas de visibilizar e potencializar o trabalho manual. O trabalho original que decorre das mãos artesãs também é desafiado pelas encomendas inusitadas. É o que conta Sônia Alves (39), de Imperatriz, que trabalha com artesanato em móveis e que aceitou a seguinte encomenda: confeccionar um vestido com material sintético semelhante à palha de babaçu: “Tudo não é natural, natural mesmo. E foi um desafio muito grande… Aí, né, ficou aquela pressão, porque sempre o nosso costume sempre era móveis, nunca roupa. Aí veio esse desafio, aí a gente começou botando uma ideia aqui, outra ali e ela vindo fazer também participando também, né? De todo o processo. Aí até quando deu certo, né?”.
Empreender no universo do artesanato tem seus desafios, é claro. A gestão do tempo, a busca por novos materiais e inspirações, a confecção do produto, a divulgação do trabalho, a valorização das peças para finalmente chegar a um preço – que é o processo de precificação. A presidente da ASSARI, conta que o Sebrae colaborou muito para o empreendedorismo dos artesãos: “A importância do Sebrae, das palestras que são dadas aqui, e que os artesãos têm feito, principalmente sobre empreendedorismo, fez uma grande diferença aqui na vida dos artesãos. Então, assim, a gente tem o conteúdo, a gente tem a teoria, e com o nosso artesanato e essa teoria que a gente aprendeu através das palestras mudou muito a vida de muitos aqui. Hoje nós temos verdadeiramente artesãs empreendedoras. E o Sebrae sempre ele nos procura para oferecer essas palestras e também quando eu preciso eu peço também a eles, sabe? E tem sido muito boa essa parceria. Só tenho que agradecer ao Sebrae”.
Conforme iniciamos nossa reportagem, a produção para o mercado é a grande busca da indústria, diferente da produção artesanal que está mais focada na valorização da economia local, em trabalhos individuais que refletem a criatividade, a cultura local e o dom do artesão. Quando escolhemos o artesanato, estamos apoiando diretamente um pequeno empreendedor, ou uma família, ou ainda contribuindo diretamente com a nossa produção, a formação e configuração identitária local, e não com as corporações. Isso dá uma sensação de propósito e de que estamos fazendo a diferença. É um ciclo virtuoso e não vicioso: ao valorizar o artesanato, ajudamos a fomentar a criatividade, a manter vivas as tradições, e a fortalecer as comunidades.
Isso é o que acreditamos. E você, o que busca quando decide adquirir uma peça artesanal?
Essa reportagem foi produzida por Barbara Cunha, Giovanna Paixão e Katherine Martins, com orientação da Professora Dra. Leila Lima de Sousa







