Isabela Alves explica como vem transformando o cinema e o jornalismo nas periferias
Elson Supapinho
Elenilson Silva
Larissa Novais
Lourrane Ferreira
Michel Hage
Rosiane Stefane
Thamyres Carvalho
Victor Medrado
Wanderson Gomes
Yanne Moreira
“Gosto muito de falar sobre as pessoas, ver as camadas, então eu tento retratar isso”. A jornalista da Agência Mural e cineasta paulista, Isabela da Silva Alves, que nasceu e atua no distrito de Grajaú (SP), destacou desta maneira a sua motivação para escolher a profissão e como isso resultou na fundação da sua produtora Parasita Filmes. Segundo informou durante entrevista aos estudantes do primeiro período do curso de jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o fato de ser de origem social humilde pesou em sua decisão.

“Cresci na periferia de São Paulo, e sempre questionei essa falta de acesso que nós tínhamos desde uma educação de qualidade”, explicou. Sempre na busca por mais igualdade entre as pessoas, ela ressaltou que os lugares distantes do centro costumam ter poucas ou nenhuma opção de diversão. “Onde eu moro não tem um cinema, não tem um museu, não tem nada que a gente possa pelo menos pensar sobre a nossa história, sobre onde a gente veio, o que a gente pode fazer”.
O currículo de Isabela aponta que ela já trabalhou em instituições como o Instituto Vladimir Herzog, que defende questões de democracia do país, o Geledés – Instituto da Mulher Negra, Rádio Brasil Atual e na casa Sueli Carneiro, que entres outras causas, debate o movimento negro brasileiro. Também foi reconhecida com condecorações como o Neusa Maria de Jornalismo (2020), o Ricardo Boechat de Jornalismo Político (2021) e o Sebrae de Jornalismo (2022). Como cineasta, ela acumula mais de 15 prêmios e seleções em mais de 80 festivais nacionais e internacionais.
Seus curtas-metragens — “Da ponte pra cá” (2022), “Amar a ilha” (2023), “O Pipa” (2023) e “Punk da periferia” (2024) — exploram temas como desigualdade, representatividade e a luta diária dos moradores das periferias. Isabela afirma que a falta de recursos financeiros e equipamentos é um grande obstáculo para muitos cineastas periféricos, o que reforça a necessidade de políticas públicas de incentivo ao setor.
Em “Da ponte pra cá”, Isabela utilizou recursos mínimos, como um celular comprado em promoção, câmeras antigas e tripés improvisados com canos de PVC. Gravado em apenas 15 dias, o curta retrata a potência criativa das periferias, mesmo em meio a tantas adversidades. “Se a gente não contar a nossa história, quem vai contar?”, questiona, frisando a importância de protagonizar suas próprias narrativas.

Por ter suas raízes na periferia de São Paulo e ser uma mulher negra, Isabela diz ter enfrentado muitas dificuldades para se estabelecer como jornalista. “A classe social conta muito, as pessoas realmente têm essa discriminação, não acreditam no seu valor, por você ser mulher”. Entretanto, entendeu que tais obstáculos a impulsionariam a ir adiante e a torná-la melhor e mais forte naquilo que faz.
Quando questionada sobre as dificuldades que enfrentou para ser reconhecida, remunerada e respeitada na sua área, Isabela mencionou a dedicação aos estudos e, principalmente, a qualificação profissional. A repórter contou que fez diversos cursos e se inscreveu em vários prêmios, enquanto equilibrava todas essas responsabilidades com a faculdade e o estágio. “Fiz matérias especiais para ser reconhecida nesse lugar, para que o mercado olhasse para o meu trabalho”.
Desde 2021, Isabela atua como correspondente do Grajaú na Agência Mural e tem orgulho do seu trabalho. Ela foca a sua atenção na produção de curtas-metragens e reportagens, retratando a história dos personagens que marcam a sua comunidade. “Falar de pessoas que a mídia geralmente nunca descobriria, se não fosse eu, que sou moradora local, para contar essas histórias”, tem sido um de seus melhores momentos. A partir de meados de 2024, também passou a coordenar as mídias sociais do Coletivo Imargem, que atua com artes visuais, meio ambiente e convivência.
Início da trajetória
Isabela relembra que quando entrou na faculdade de jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi, em 2014, sofreu um pouco a questão da diferença social. O fato de ser de uma região distante gerou certo preconceito por parte de alguns colegas, pois a maioria vinha de classes mais abastadas, mas isso não a desmotivou a desistir do seu sonho. “Eu era uma das únicas pessoas de periferia em uma sala de 50. Tinha cinco como eu, sabe?”.

Ela sempre buscou abordar a temática dos direitos humanos em sua carreira. Sua experiência inicial foi no portal de notícias Observatório do Terceiro Setor, que trata de causas sociais, mas teve dúvidas e certas inseguranças. “No meu primeiro trabalho, entrei lá como estagiária. Eu cheguei a ser efetivada como repórter, mas ainda assim meu salário era muito pequeno para o tanto de trabalho que eu fazia”, comenta. Tinha que exercer diversas funções, como escrever para o site e a emissora de rádio e ainda estar disponível em outras frentes. Foi quando decidiu, apesar do medo, buscar novos horizontes.
Atualmente ela trabalha na Agência Mural de Jornalismo da Periferia, cobrindo o lugar onde mora. Isabela conseguiu despertar o seu olhar para o Grajaú, conhecendo melhor suas potencialidades e os ativistas que atuam na região. “Em dezembro de 2021, a gente criou a produtora Parasita Filmes e até agora nós temos quatro curtas. Mas todos são focados no nosso território aqui do extremo sul, que ocupa 9% da população de São Paulo”.
Vínculos afetivos
Moradora do bairro Cantinho do Céu, a repórter utiliza de várias linguagens para expor os problemas, as novidades e as pessoas do local. Muitos atrelam as comunidades à violência e à criminalidade, segundo a cineasta. “A gente pensa muito na questão da violência, por exemplo, ‘Cidade de Deus’ ou todos esses filmes do Rio de Janeiro”, citou como exemplo.
São pessoas que acordam cedo e têm uma rotina que por vezes é árdua. “Todo mundo sai até três horas antes para chegar no trabalho. A nossa realidade é muito difícil assim, trabalhar para pagar a conta”, enfatiza Isabela. Com essa perspectiva, a saída é expressar as vivências da periferia para desconstruir os estereótipos. “A gente tenta retomar essa narrativa contando histórias de amor, de luta e de representatividade”, manifesta.
Projeto Aquático
Nas suas reportagens, Isabela costuma voltar o seu olhar para as preocupações daquelas pessoas que dependem das atividades na histórica represa Billings: os pescadores. Buscando denunciar a negligência pública e as melhorias que precisam, está sempre atenta aos problemas ambientais que causam ansiedade. “Sempre que posso estou entrevistando os ativistas, falando das novas iniciativas”. Há alguns anos, o acesso à represa não era fácil. “Muitas pessoas fizeram moradia em frente a ela, e a gente era basicamente como um esgoto. Hoje em dia realmente tem essa luta ambiental pela preservação e recuperação dela”.
Ao longo de um ano, Isabela vem acompanhando o projeto “Aquático”, primeiro transporte público hidroviário da cidade de São Paulo. Os barcos operam pelas águas da represa, partindo do bairro onde Isabela reside, com rumo à região do Mar Paulista, na Pedreira, facilitando a travessia para outras regiões da zona sul.
Em junho de 2024, junto da Agência Mural, a repórter passeou com exclusividade na embarcação recém-inaugurada. Dessa vez, realizou uma cobertura no formato Reels, do Instagram, mostrando de perto a inovação. “Essa reportagem foi muito especial, porque é o primeiro da cidade de São Paulo. Foi um impacto muito grande poder falar dessa novidade, porque eu moro a 10 minutos da Billings”. Isabela também procurou ressaltar as melhorias ainda necessárias, porque foi um transporte planejado em época de eleição. “Então o prefeito também tentou se promover. E a gente, que vive ali, sabe das complexidades da represa”, pondera.

Para Isabela, o jornalismo abre várias possibilidades para tratar de um mesmo tema. “É possível ter outras formas também. Por exemplo, quando abaixa a represa, as dificuldades de locomoção nesse próprio barco, a questão da poluição nos terminais”, enumera.
Explorando suas possibilidades, ainda em 2023, a cineasta roteirizou e dirigiu o curta-documental “Amar a ilha”, oriundo da formação e produção audiovisual “Meu Olhar Filmes Curtos para Jovens Periféricos”. Isabela registra o trabalho de reciclagem voluntária do pescador João Alfredo da Silva.
“O documentário surgiu justamente quando eu estava fazendo outra reportagem sobre os pescadores da Billings, e aí eu fiquei sabendo da história desse senhor que vive sozinho, já é aposentado, mas dedica a vida a catar esses recicláveis”, contextualiza. O personagem assume a reciclagem do lixo na represa como uma missão. “Eu faço sozinho isso aqui, só eu e Deus. Se minha sina foi pra isso, então vou ter que continuar até o fim”, lamenta João, em seu depoimento no filme.
A diretora mostra as condições de trabalho do pescador, que conta apenas com um pequeno barco à motor, sem colete salva-vidas, sem saber nadar e sem apoio dos poderes públicos ou das outras pessoas. Seu João acrescenta que, se fosse para receber uma boa ajuda, que envolva melhores condições para realizar o seu trabalho com mais segurança. “Todos nós sujamos isso aqui, não vou culpar gente lá de fora, somos nós mesmos, mas ninguém pensa no que está fazendo”, desabafa João. O catador acredita que se todos se conscientizassem, a Billings seria uma das mais limpas.
A partir da narrativa que cria com as imagens e entrevistas, Isabela Alves aponta os problemas da poluição que desce represa abaixo. Sua sensibilidade faz com que seu trabalho dialogue antes de tudo com as pessoas que movimentam todo o Grajaú. Os relatos dessas fontes recebem a importância e a autoridade para cobrar os poderes públicos por melhorias e visibilidade. “Foi uma honra também honrar o trabalho do seu João”, considera a cineasta.

Na sua opinião, a essência da profissão está na descoberta de novas histórias e na inclusão de perspectivas antes ignoradas pelas grandes mídias. “Por muito tempo, o jornalismo ficou nas mãos de grandes corporações que perpetuaram estereótipos prejudiciais às pessoas negras, pobres e periféricas”. Isabela crê que as iniciativas independentes são uma ferramenta essencial para quebrar esses paradigmas e auxiliar em um processo de dar mais visibilidade às comunidades marginalizadas.
Incentivos
Em um cenário de desigualdade social, iniciativas públicas têm desempenhado um papel crucial no fortalecimento da produção artística na cidade de São Paulo, especialmente em periferias como o Grajaú, onde Isabela mora e atua. Esses programas viabilizam projetos culturais que democratizam o acesso à arte e promovem a inclusão de narrativas que refletem a diversidade brasileira. “Aqui em São Paulo, a maioria dos artistas independentes de periferia recorrem aos editais públicos para financiar os seus projetos”.
O Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), gerido pela prefeitura paulista, é um exemplo de política pública que tem incentivado jovens artistas e coletivos a desenvolverem projetos em regiões de vulnerabilidade social. Dividido em duas categorias, a ação contempla tanto iniciativas de menor porte, no VAI I, quanto mais estruturadas, no VAI II.

Um exemplo destacado por Isabela é a Lei Paulo Gustavo, criada durante a pandemia de Covid-19 e promulgada em 2022, como uma resposta emergencial ao setor cultural. Com um aporte de R$ 3,8 bilhões, a legislação prioriza o setor audiovisual e garante que os recursos cheguem a populações e regiões historicamente marginalizadas.
Outra forma de fomento mencionado pela jornalista é o Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo [Proac-SP], que incentiva o financiamento por meio de renúncia fiscal e editais que repassam recursos diretamente para os projetos. Ambos os modelos têm o objetivo de descentralizar e dar visibilidade a atividades que promovam diversidade, inovação e impacto social, segundo Isabela. Na sua visão, esses mecanismos têm permitido que artistas e coletivos superem barreiras financeiras e consolidem suas produções no cenário nacional.
Este perfil foi elaborado a partir de uma entrevista coletiva organizada pelos (as) estudantes do 1º semestre de Jornalismo da UFMA. O texto final, resultado da edição dos exercícios da disciplina Redação Jornalística, é a primeira publicação desses futuros jornalistas.